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  Geral - Entrevistas
  Entrevistado: Prof. Edmar Almeida, GEE/UFRJ
  Data: 28/04/2016

    Indústria do petróleo: uma década perdida


Edmar Almeida - GEE/UFRJ

Quem assiste as palestras do professor Edmar Almeida, sem dúvida, deixa o auditório com um arsenal de argumentos para refletir. Com muita lucidez e um discurso direto, o pesquisador do Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) tem o mérito de ser um orador que não dá voltas. A análise costuma ir bem na ferida do setor de óleo e gás, no qual carrega uma longa experiência. 

"No segmento offshore, estamos assistindo a postergação de muitos projetos. Não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos e Mar do Norte", observa Almeida, que não tem dúvidas em afirma que esta é a crise mais grave vivida pela indústria mundial de petróleo. De 2009 para cá, o que se tem é uma crise aguda, sem precedentes.

Em entrevista exclusiva, o pesquisador do GEE/UFRJ traça um retrato do atual momento do setor de petróleo. O cenário que se avizinha é devastador, na visão do professor: "basicamente, ainda vamos ver muito desemprego e um número importante de empresas quebrando.

A indústria de petróleo vive, hoje, um cenário pesado, com o volume de investimentos passando de US$ 700 bilhões, em 2015, para US$ 350 bilhões, em 2016. Qual é o reflexo para o segmento de exploração e produção?

Edmar Almeida - O efeito é uma forte pressão financeira sobre toda a cadeia. As empresas operadoras estão tentando se ajustar à nova realidade de preços através do corte dos investimentos. Isto terá um impacto devastador para a cadeia de fornecedores que terá que realizar um ajuste ainda maior. Basicamente, ainda vamos ver muito desemprego e um número importante de empresas quebrando.

O que os números mostram em relação à queda de produção por conta desta crise internacional da indústria de E&P?

A produção está caindo nos Estados Unidos. Os projetos de óleo não-convencional apresentam características que permitem um ajuste mais rápido. São projetos de menor tamanho e complexidade. O número de sondas em operação caiu pela metade nos Estados Unidos. Eu acredito que a queda vai continuar. No segmento offshore, estamos assistindo a postergação de muitos projetos. Não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos e Mar do Norte. No caso do Brasil, a produção não caiu, mas deverá crescer bem menos do que o previsto.

O momento está levando as grandes produtoras de petróleo a venderem seus ativos? O que isso pode trazer de impactos para o setor?

O volume de fusões e aquisições nesta crise está menor que o de outros momentos de crise. Aparentemente, muitas empresas estão tentando vender e poucas com apetite para comprar. Não está fácil vender ativos.

Esta indústria, como a história mostra, costuma passar por crises cíclicas. Qual é diferença desta em relação a outras? Esta é a mais grave?

Eu acredito que esta crise é mais grave. Na verdade, do ponto de vista empresarial, esta crise começou em 2009. Os custos na indústria mundial do petróleo subiram muito fortemente após o ano 2000. As principais empresas do setor aumentaram muito seus investimentos, mas a produção das mesmas ficou estagnada. Ou seja, a produtividade do capital diminuiu na última década. Desde 2009, as principais empresas de capital aberto do mundo não conseguem gerar fluxo de caixa livre para pagar dividendos. A rentabilidade para os acionistas ficou muito abaixo dos outros setores da economia. Ou seja, a crise atual pegou as empresas num momento econômico já complicado. Na Petrobras, a crise é ainda mais dramática em função do forte endividamento. Mas a situação das outras grandes empresas de capital aberto não é muito alentadora.

Em uma perspectivas de médio prazo, qual seria o valor ideal do barril do petróleo para que o mercado voltasse a se equilibrar?

Eu acredito que, após muito sacrifício, as empresas vão trazer seus custos para um patamar médio, de 70 a 100 dólares, para cerca de 50 dólares nos próximos dois anos. Ou seja, para o setor voltar a ter uma rentabilidade interessante, seria importante que o petróleo voltasse a um patamar de 60-80 dólares a médio prazo.

De que forma uma crise mais prolongada na indústria mundial de petróleo pode favorecer o desenvolvimento de fontes renováveis?

Não acho que favorece.

Preços baixos de petróleo e gás favorecem o consumo de combustíveis fósseis. Além do cenário internacional, no Brasil temos outras crises, como a política e a institucional da Petrobras. Qual é o buraco que isso trouxe para o nosso mercado?

O buraco é a dívida da Petrobras. Ou seja, US$ 100 bilhões de dólares. A crise de governança da Petrobras e a interferência do governo na precificação dos combustíveis no Brasil levou a empresa a se endividar muito além do planejado. A rolagem e a amortização desta dívida agora representa um desafio adicional para a Petrobras. Todas as empresas do setor estão tendo que fazer um ajuste. No caso da Petrobras, o ajuste terá que ser ainda maior para lidar com este passivo.

O plano da Petrobras trouxe uma redução bem significativa no volume de investimentos, o que, compromete toda a cadeia aqui no país. O cenário que se vislumbra é de uma quebradeira geral?

Certamente, uma parte das empresas da cadeia de fornecedores não deverá resistir à queda brutal das encomendas. Aquelas que se endividaram muito para investir para atender encomendas que desapareceram correm sério risco de quebrar. Mas vale a pena lembrar que, mesmo com todo corte o investimento em E&P no Brasil, o volume ainda é elevado e maior que o de 2008, quando foi descoberto o pré-sal. Ou seja, não vejo razão para se falar em quebradeira geral.  

Investimento em baixa, desinvestimentos, dívida elevada. Esta mistura é explosiva. Como a Petrobras vai sair dessa?

Na minha opinião, a Petrobras vai sair desta. Só tenho dúvidas se ela vai conseguir sair sozinha ou se vai precisar de uma ajuda do governo.  

É hora de mudar ou flexibilizar o modelo em vigência? O projeto de lei que tira a obrigatoriedade de a Petrobras participar com 30% da exploração do pré-sal está na medida certa ou é preciso fazer muito mais?

Certamente, esta mudança ajudaria muito a retomada dos investimentos. A Petrobras enfrenta um enorme desafio financeiro e seria muito ruim para o país deixar o pré-sal prisioneiro aos problemas das empresa.

Quais são os reais riscos de o país perder o bonde do pré-sal e deixar toda a riqueza no mundo do oceano?

Os riscos são significativos. As políticas energéticas estão mudando rápido a favor das fontes renováveis. A tecnologia também avança rápido e os custos das fontes renováveis estão caindo. Assim, a demanda de petróleo pode estagnar e começar a cair mais rápido do que o esperado. Neste contexto, a disputa pelo mercado internacional de petróleo ficaria mais difícil.

Qual o sinal de preço ideal do barril de petróleo para tornar viável a exploração do pré-sal?

Na minha opinião, a maioria dos campos do pré-sal será viável com o petróleo a 50 dólares o barril. Para isto, as empresas devem buscar um aumento de eficiência e redução de custos. Tem um dever de casa a ser feito pelas empresas na busca de inovações tecnológicas e organizacionais. O governo também deve fazer a sua parte e ajustar a regulação e a carga tributária ao contexto atual do mercado mundial de petróleo.

 

Fonte: Júlio Santos, PennWell do Brasil, abr/2016 

 

 

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