O GasNet registra, com grande pesar, o falecimento do Dr. Paul Poulallion, um dos mais profundos conhecedores dos problemas energéticos brasileiros, e o primeiro cientista a escrever em nossa língua sobre gás natural. O GasNet, quando de sua fundação, há 25 anos atrás, teve do Dr. Poulallion a base de sua construção - a pedido do Eng. Antônio Goulart, o idealizador do site, Dr. Poulallion redigiu os artigos técnicos que esclarecem os leitores sobre as características do gás natural e suas principais aplicações. A ele, nossa permanente gratidão.

13 outubro 2021

Continua dentro do cronograma a construção e montagem do projeto Azulão-Jaguatirica II, a primeira exploração de gás natural na bacia do rio Amazonas - os demais pontos de produção do Estado são na bacia do rio Solimões. O empreendimento, que levará GNL à térmica em final de montagem em Boavista,RO, se tiver toda a sua capacidade aproveitada, atenderá a 70% do consumo do Estado, inclusive chegando a vários pontos hoje isolados. Desta vez, a inauguração foi da UPGN, unidade que trata o gás natural extraído no campo de Azulão, e que será liquefeito, estocado e despachado por veículos especializados. A Eneva, empresa construtora e operadora em ascensão técnica e econômica, investirá R$ 1,8 bilhões no projeto, que operará em 2022.
O potencial de produção de biogás do Brasil, considerado o maior do mundo (120 milhões m³/dia, segundo a Abiogás), em função do enorme volume de resíduos orgânicos provenientes de nossa agricultura, pecuária e centros urbanos está, finalmente, sendo aproveitado, como temos frequentemente noticiado. Um projeto recém-apresentado pela Vibra Energia (ex-BR Distribuidora) e pela ZEG Biogás poderá obter 3 milhões m³/dia de biometano (biogás purificado), duplicando o que se produz hoje, utilizando resíduos do processamento de cana de açúcar (especialmente vinhaça, um passivo ambiental) de 300 usinas de etanol, pertencentes aos 60 grupos industriais que hoje são fornecedores da Vibra. O biometano, equiparado tecnicamente ao gás natural, poderá ser consumido como combustível ou para produção de energia elétrica, e o resíduo do seu processamento ainda poderá ser utilizado como fertilizante nos canaviais.
Um contrato de grande repercussão no mercado brasileiro de gás natural foi assinado em 08/10/21 entre o Governo do Estado de S.Paulo e o Grupo Cosan - a renovação antecipada da concessão de distribuição de gás na área hoje servida pela Comgás, agora estendida por mais 20 anos, de 2029 para 2049. A prorrogação, já mencionada neste site, dá à Compass, empresa do Grupo Cosan para gás natural, a segurança necessária para forte ampliação dos serviços da Comgás, que levará o combustível a mais 41 municípios, implantando 15,4 mil km de tubulações e ligando 2,3 milhões de novos clientes à rede - em 2049, a meta é servir a 134 munícipios através 34 mil km de tubulação, atendendo 4,4 milhões de clientes com 9,8 milhões m³/dia de gás.. Para isto, a Compass deverá investir R$ 21 bilhões até o horizonte da concessão, obrigando-se a desenvolver novas fontes de suprimento, como o biometano, e diversificar a aquisição de gás através de regras claras e leilões.
São muitas as consequências para o país da assinatura, em 08/09/19, do Termo de Compromisso de Cessação de Prática, entre a Petrobras e o CADE, visando a abertura do mercado de gás natural brasileiro. Uma das áreas mais atingidas foi a do fornecimento de gás para as distribuidoras regionais, antes monopólio da estatal, e hoje com vários novos supridores, grandes e pequenos, brasileiros ou não, e diferentes formas e fontes de fornecimento. Um bom exemplo é a Bahiagás, que procura - e encontra - pequenos supridores locais, como a Origem Energia que, desde setembro/21, fornece gás à distribuidora. A partir de campos terrestres na região de Alagoinhas, ao norte de Salvador, a Origem está entregando 15 mil m³/dia, usando infraestrutura já existente, e em uma segunda fase chegará a 150 mil m³/dia, depois de implantar as instalações necessárias. Uma revitalização da produção onshore, diz o presidente da distribuidora, preços mais competitivos, melhores oportunidades de trabalho e comércio no interior do Estado. Uma chamada pública que a Bahiagás fará, em conjunto com a Algás e a PBgás, certamente vai dinamizar o esforço de diversificação de fontes e empresas supridoras.
As mais recentes notícias vindas da China e de outros países asiáticos indicam que os bons propósitos anunciados, de redução do impacto da ação humana sobre o meio ambiente, estão mais longe de serem alcançados. Uma crise no suprimento de energia, que elevou fortemente os preços de todos os combustíveis, como carvão, óleo, gás natural, GLP e etanol, forçando o fechamento total ou parcial de fábricas nos principais centros industriais da China, levou as autoridades do país a ordenar a imediata expansão da extração de carvão nas duas maiores áreas produtoras, Shanxi e Mongólia Interior - serão mais 160 milhões de ton neste final de ano. Se, por um lado, fica garantido o aquecimento dos chineses no inverno que se aproxima, por outro fica patente o abandono das metas de contaminação da atmosfera (em inglês)

30 setembro 2021

Em maio/20, o preço internacional do GNL estava na ordem de US$ 2/milhão btu (Mbtu) nos principais mercados globais, face principalmente à entrada em operação de diversas unidades de liquefação. Desde aquela data, segundo análise recente do banco americano Morgan Stanley, problemas de produção, capacidade de armazenamento insuficiente e forte aumento na demanda levaram os preços à faixa de US$ 20/Mbtu, um valor bem acima do que poderia ser, se levados em conta os fundamentos do mercado e a paridade com outros combustíveis. Em julho e agosto/21, as importações globais cresceram 7% nos maiores mercados mundiais, Ásia e Europa, com destaque para a China e Coréia do Sul, mas também na América Latina, especialmente para o Brasil. Este panorama, entretanto, não deve manter-se - boa parte do crescimento é fruto de condições climáticas desfavoráveis, como chuvas reduzidas que afetam a geração hidrelétrica, e a partir de outubro teremos o gasoduto Nord Stream 2 abastecendo a Europa. Volatilidade com viés de queda é a previsão do Morgan Stanley.
Em um momento em que as condições climáticas impõem restrições à geração hidrelétrica, concentrada no Sudeste do país, entrou em operação em 16/09/21 a segunda maior termelétrica brasileira, a Gás Natural Açu 1 (GNA 1), com capacidade instalada de 1.338 MW, só inferior à UTE Porto de Sergipe 1, de 1.551 MW, que entrou em operação em janeiro/21. A GNA 1 faz parte do Complexo Porto do Açu, em S.João da Barra, RJ, controlado pela Prumo Logística, empresa do grupo americano EIG, que na térmica tem como parceiros a inglesa BP, a chinesa SPIC e a alemã Siemens. A UTE, com suas três turbinas a gás natural e uma a vapor em ciclo combinado, consumirá 5,5 milhões m³/dia de gás, recebidos em um terminal de GNL, e escoará sua energia por uma LT de 52 km, até a conexão com o sistema SIN, em Campos. Outra térmica, de capacidade ainda maior (1.672 MW), está em início de implantação na mesma área.
Depois de travar uma guerra de preços contra o shale oil&gas americano, a Arábia Saudita aprovou recentemente a exploração do maior campo de gás não convencional fora dos EUA, para cujo desenvolvimento contou com a tecnologia desenvolvida por grandes firmas americanas, como Schlumberger, Halliburton e Baker Hughes. O campo de Jafurah, próximo ao de Ghawar, o maior campo de petróleo mundial, contém 200 trilhões de pés³ de gás (5,6 trilhões de m³), além de enormes volumes de etano e de condensado. Com investimentos estimados em US$ 110 bilhões, a Aramco espera ter, em 2024, a capacidade de produzir diariamente em Jafurah 2,2 bilhões de pés³ de gás (62 milhões m³/), além de 130 mil barris de etano e 500 mil de condensado. Estes volumes farão a Arábia Saudita, o maior exportador mundial de petróleo, tornar-se também um dos maiores no mercado mundial de gás natural.
O biometano está encontrando seu mercado em São Paulo. Depois de noticiada sua aplicação na Gás Brasiliano, no Noroeste do Estado, informa-se agora que a Raízen fechou um contrato de fornecimento de biometano com a norueguesa Yara, nossa segunda maior produtora de amônia (7 milhões de ton em 2020, para uso em fertilizantes nitrogenados), que passará a entregar a chamada "amônia verde". Este será o primeiro contrato de uso industrial do biometano no país - serão 20 mil m³/dia a partir de 2013, ainda longe do consumo total de hidrogênio da Yara, mas com viés ascendente. A Raízen obterá o biometano em plantas de biogás anexas às suas usinas, onde usará os resíduos da produção de etanol, e utilizará os dutos da Comgás para chegar á fábrica da Yara, em Cubatão. Uma visão de um futuro descarbonizado.
A anglo -holandesa Shell está no Brasil há mais de cem anos, e hoje produz 350 mil barris diários de óleo equivalente - a segunda maior do país, escolhido pela empresa como um dos quatro preferenciais para investimentos. Disposta a zerar até 2050 suas emissões líquidas a nível mundial, os dirigentes da empresa anunciaram em 21/09/21 o lançamento da Shell Energy, que será o principal vetor na transição energética em curso - nela serão investidos R$ 3 bilhões até 2025, visando acrescentar 2 GW de potência instalada limpa aos 2,7 GW que já estão em operação ou desenvolvimento no país. O foco é a fonte solar, a que mais rápido cresce no Brasil, mas a Shell Energy também concluirá a UTE Marlim Azul, de 565 MW, em Macaé, a primeira térmica brasileira a utilizar gás natural do pré-sal. Outro foco da nova empresa será o aproveitamento do enorme potencial eólico do nosso offshore, que aguarda a publicação das regras do Governo para início dos investimentos.

15 setembro 2021

A GasBrasiliano, concessionária da distribuição de gás natural em 375 municípios do Noroeste de São Paulo, vem expandindo com rapidez o número de seus clientes - foram mais de 3,5 mil novas ligações nos últimos 12 meses. É também da GasBrasiliano uma das mais interessantes iniciativas na diversificação da fonte do gás ofertado. Como parte de um projeto denominado "Cidades Sustentáveis", a empresa iniciou a construção de gasodutos que levarão biometano a três municípios de sua área. O biometano será produzido a partir de resíduos do processamento de cana de açúcar, abundantes na região, em uma usina já construída pela Cocal, a um custo de R$150 milhões. O conjunto deverá operar em julho/22, uma antecipação do que poderá ocorrer em boa parte do interior brasileiro ainda não servido por grandes gasodutos.
Com a compra, em janeiro/21, dos ativos da Golar Power, a americana New Fortress Energy tornou-se o maior investidor privado em GNL do país, com um terminal de liquefação em operação em Sergipe, participação na UTE Porto de Sergipe I, de 1.551 MW, e terminais em desenvolvimento em Sta.Catarina, em Barcarena, no Pará, e no Suape, Pernambuco. Sua atuação, entretanto, não ficará restrita ao GNL - ao anunciar investimentos, que totalizam US$ 350 milhões nos próximos 12 meses, seu executivo para novos projetos indicou que a empresa participará das chamadas públicas das distribuidoras do Nordeste e Centro-Sul, e já tem um contrato no mercado livre para suprir as fábricas de fertilizantes nitrogenados da Bahia e Sergipe, arrendados pela Petrobras à Unigel. Além do Brasil e EUA, a New Fortress opera terminais de GNL no México, Jamaica e Porto Rico, e tem outros em construção na Europa e Ásia.
A paulista Comgás, sob vários aspectos a maior distribuidora brasileira de gás natural, é também uma das mais antigas - fundada por ingleses em 1872, foi nacionalizada em 1959, e concedida à iniciativa privada em 1999. Na época da concessão, a empresa tinha 300 mil clientes e uma rede de 600 km, servindo a 19 municípios - hoje tem 2,1 milhões de ligações e 19 mil km de rede em 93 municípios. Com base neste crescimento, e também nas estimativas da EPE, que prevê a duplicação do volume líquido de gás ofertado à distribuição (de 73 para 140 milhões m³/dia até 2030), o atual concessionário, o Grupo Cosan, está propondo a extensão da concessão, que termina em 2029, para 2049. Para tanto, o Grupo se obriga a realizar investimento anual de R$ 1 bilhão, aumentando a rede em 35 mil km, levando o gás a 2,3 milhões de clientes adicionais e servindo a novos 41 municípios - além de substituir o indexador de hoje, o IGPM, pelo mais moderado IPCA. Uma proposta a ser considerada.
A EDP Energias de Portugal, fundada em 1976 pela fusão de outras empresas, é hoje um dos grandes players internacionais na área energética, com mais de 35 mil colaboradores em vários países, e participação acionária diversificada, inclusive da China Three Gorges. Aqui presente desde 1996, a EDP-Energias do Brasil volta-se agora para as fontes renováveis - através da controlada EDP Renováveis (EDP R), já opera usinas eólicas e solares em todo o país, tendo como meta dispor de um parque gerador 90% renovável até 2030. Outras fontes alternativas são também objeto de pesquisa e desenvolvimento da EDP brasileira - em Pecém, no Ceará, serão aplicados R$ 42 milhões na instalação de uma usina produtora de hidrogênio verde (H2V), capaz de entregar 250 m³/hora do combustível. A energia necessária será fornecida por uma usina solar de 3 MW, e o hidrogênio será proveniente de um módulo de eletrólise de água, para garantia de que a operação não envolverá combustíveis fósseis.
A russa Gazprom, a maior produtora e exportadora mundial de gás natural, anunciou em início de setembro/21 a execução da última solda do gasoduto Nord Stream 2, que deverá entrar em operação em outubro/21. O novo duto, uma obra de US$ 11 bilhões, tem 48 polegadas de diâmetro e 1.228 km de extensão, correndo pelo fundo do mar Báltico, em paralelo ao Nord Stream 1 (que opera desde 2011), e tem como ele a capacidade de transportar 150 milhões de m³/dia, cinco vezes o nosso GasBol. Este volume adicional trará problemas não apenas à Ucrânia e Polônia, que perderão parte dos impostos que cobram pelo direito de passagem do gás russo por seu território - também os exportadores americanos de GNL sofrerão com a nova oferta, que tentaram em vão impedir com embargos e pressões diplomáticas. Ainda há ações judiciais em curso, pois os regulamentos da União Européia exigem que o produtor do gás seja diferente do transportador - um óbice que a Gazprom certamente superara´.

31 agosto 2021

Em sua publicação mensal Short-Term Energy Outlook (STEO), referente a agosto/21, a agência americana Energy Information Administration (EIA) prevê que, no segundo semestre de 2021, a produção mundial de petróleo deverá ser, em média, de 98,9 milhões de barris diários (mb/d), ligeiramente abaixo da previsão anterior (99,4 mb/d), mas ainda assim muito próxima dos valores pré-pandemia, longe das grandes quedas previstas tempos atrás. A produção da OPEP, cerca de um terço do total (33 mb/d), ficará estabilizada, o mesmo ocorrendo com os recém -chegados às dez primeiras colocações do ranking mundial, como o Brasil, estacionado pouco abaixo dos 3 mb/d.
A geração de energia elétrica a partir de usinas a gás natural, uma atividade não incluída entre as prioridades da Petrobras, ganhou uma relevância inesperada com a seca que que já atinge parte considerável do país. Reduzida a apenas 2 GW em setembro/20, a capacidade de geração elétrica da estatal cresceu para os atuais 8 GW, graças a diversas medidas no sentido de maximizar a oferta de gás natural, que em nove meses passou de 12 para 35 milhões m³/dia. Entre estas medidas estão a ampliação do Terminal de Regaseificação de GNL da Baía da Guanabara, que passou de 20 para 30 milhões m³/dia, e a flexibilização pela ANP da especificação do gás processado na UPGN de Caraguatatuba. Um novo contrato interruptível com a Bolívia está também sendo negociado.
Recente levantamento feito pela Abegás indica um aumento substancial no consumo de gás natural no país - 33,7% na média do 1S21,o primeiro semestre do ano (72 milhões m³/dia), na comparação anual. O fator mais evidente para este surpreendente aumento está no segmento termelétrico, acionado em toda a sua disponibilidade em face da seca que estamos atravessando, e que cresceu 61,76%. Entretanto, outros segmentos do mercado que não têm motivos tão óbvios exibiram aumentos significativos, como o industrial (+ 21,29%), o automotivo (+ 16,27%) e como matéria prima (+17,50%). Mesmo considerando os fracos números do 1S20, os valores são favoráveis, diz a Abegás, acima dos anteriores à pandemia.
A Shell é a segunda maior produtora de gás natural do país - são cerca de 15 milhões m³/dia, totalmente produzidos no offshore, principalmente no campo de Tupi. Por falta de escoamento, a produção é vendida à Petrobras, a preços pouco satisfatórios. A partir da assinatura do Termo de Compromisso da estatal com o Cade, em 08/07/19, a Shell passou a ter possibilidade de comercializar seu gás, mediante acesso à infraestrutura de escoamento existente - e o primeiro contrato de fornecimento foi firmado em 24/08/21 com a pernambucana Copergás. Serão 750 mil m³/dia no primeiro ano, e 1 milhão nos dois anos seguintes, com preços abaixo dos atuais e reajustes vinculados ao preço internacional do petróleo ou ao Henry Hub. Segundo seu presidente, a Shell espera fechar em breve outros contratos semelhantes para seu gás do pré-sal (além do consumo próprio, na UTE Marlim, em Macaé), e cogita ainda operar com GNL importado, tornando-se um fornecedor substancial ao crescente consumo do país.
Os residentes em países do Ocidente, especialmente nos mais desenvolvidos, têm a impressão de que o problema da geração elétrica a carvão está em vias de solução, com a consequente redução da emissão de poluentes. Isto, infelizmente, não ocorre de forma global - na Ásia, o uso do carvão termelétrico continua em pleno crescimento. Segundo informações recentes da consultoria inglesa Carbon Tracker, cinco países asiáticos (China, Índia, Japão, Indonésia e Vietnam) têm em desenvolvimento 600 novas usinas a carvão, totalizando 300 GW, a maioria das quais na China (368) e na Índia (92), que já eram os maiores responsáveis pela elevação global do uso do combustível. Um forte contraste com as declarações do líder chinês, de que seu país será neutro em carbono até 2050, e também na contramão dos custos cada vez menores da energia gerada por fontes renováveis (em inglês).

01 julho 2021

A Rússia é o segundo maior produtor mundial de gás natural, com mais de 1,9 bilhões m³/dia, e continua investindo pesado na expansão da produção. Uma subsidiária da Gazprom acaba de comissionar a fase inicial de uma das maiores UPGNs hoje em operação, a AGPP, em Amur, no Pacífico siberiano, próximo à ilha de Sakalina. A AGPP terá capacidade total de processar 42 bilhões m³/ano (115 milhões m³/dia), mais que o somatório das nossas UPGNs. As cinco etapas seguintes serão sincronizadas com o aumento da extração de gás na região de Irkursk, também na Sibéria. O investimento na AGPP está orçado em 11,4 bilhões de euros, e usará tecnologia criogênica licenciada pela alemã Linde. O complexo de Amur produzirá também etano, que permitirá a obtenção de 2,3 milhões ton/ano de polietileno e 400 mil ton/ano de polipropileno.
A velocidade da expansão mundial da geração elétrica a partir de fonte eólica tem superado as estimativas, e já há dificuldade de obtenção de matéria prima para fabricação de componentes em alguns países, como os EUA (The Economist, 18/06/21). No Brasil, com extenso parque produtor, não parece existir carência de peças - em 2020, a fonte eólica respondeu por 43% da capacidade adicional instalada, segundo informa a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica). São agora 726 parques em operação, com mais de 8 mil aerogeradores, totalizando 19,1 GW, o que faz da fonte eólica a segunda maior em nossa matriz elétrica - e serão 30 GW em 2024, mantendo ou melhorando a posição do país no ranking eólico global (hoje somos o sétimo). A qualidade dos ventos brasileiros explica em parte este desenvolvimento - nosso fator de capacidade médio é de 40,6%,chegando a 59% na época dos ventos fortes, contra a média mundial de 35%.
O Brasil, pelas dimensões de sua agricultura, pecuária e centros urbanos, tem um dos maiores potenciais do mundo para a produção de biogás, proveniente da decomposição de resíduos orgânicos - a Abiogás avalia que poderíamos obter 120 milhões m³/dia de biogás destas fontes, mas de fato apenas uma fração deste total é hoje utilizada. Com a crescente pressão pela descarbonização de suas operações, diversas empresas estão optando pelo uso do biogás, e um dos exemplos mais recentes é a Claro, que inaugurou nestes dias uma usina em Nova Iguaçu,RJ, com capacidade instalada de 4,65 MW, que suprirá as necessidades energéticas de 2.991 instalações operacionais da empresa, como torres de telefonia e datacenters. O biogás, obtido pela decomposição de matéria orgânica de um aterro sanitário que recebe 4.500 ton/dia de resíduos de municípios da Baixada Fluminense, é tratado e canalizado para o conjunto moto-gerador, a maior usina a biogás em operação no país.
O programa de desinvestimentos da Petrobras, aliado ao propósito da empresa de concentrar-se no pré-sal, embora bem sucedidos no aspecto empresarial, modificaram substancialmente a participação da estatal na produção de petróleo e gás natural no país - segundo a ANP, ela passou de 84% em abril/16 para 73% no mesmo mês de 2021. Em paralelo, cresceu a fatia das empresas estrangeiras (Shell, Repsol Sinopec, Petrogal, Total, Chevron, Equinor, Exxon), hoje em 20%, e da iniciativa privada nacional (Enauta, PetroRio, Dommo), que já respondem por 7% do O&G extraído no país. De acordo com o IBP e especialistas do setor, a tendência é de redução ainda maior da parcela estatal, com a manutenção dos desinvestimentos da Petrobras e das oportunidades decorrentes dos novos marcos legais da produção, transporte e consumo do gás natural.
Pelo TCC - Termo de Compromisso de Cessação de Prática, assinado em 08/09\19 entre a Petrobras e o CADE, visando o desinvestimento dos ativos de gás natural da estatal, a alienação da Gaspetro deverá ser efetivada até o final de junho/21 - e a Compass, do grupo Cosan parece ser a mais provável compradora. Com participação em 19 distribuidoras regionais, a Gaspetro tem seu controle dividido entre a Petrobras (51%) e a Mitsui (49%), e esperava-se que a japonesa exercesse seu direito de preferência, o que não ocorreu. Na proximidade da data exigida pelo TCC, a Compass conseguiu obter do próprio CADE a autorização para a apresentação de sua proposta, da ordem de R$ 2 bilhões. Se efetivada a compra, a empresa, já controladora da Comgás, passará a ser a maior protagonista do mercado distribuidor de gás natural, no momento em que há vários fatores favoráveis à expansão das redes por todo o país.

15 junho 2021

Os três Estados do Sul, Paraná, Sta.Catarina e R.G.do Sul, consomem hoje cerca de 5 milhões m³/dia de gás natural, o limite atual da capacidade do GasBol, praticamente sua única fonte de suprimento, volume claramente insuficiente para abastecer o grande número de novas indústrias da região. Esta crônica demanda não atendida tem data para acabar - no final deste ano já deverá estar em operação o TGS, Terminal Gás Sul, um empreendimento orçado em US$ 77 milhões, a ser realizado pela New Fortress Energy (NFE), que no início de 2021 adquiriu a norueguesa Golar. A partir da Licença Ambiental de Instalação (LAI), concedida em 28/05/21, iniciam-se as obras em S.Francisco do Sul,SC, que incluem um FRSU ancorado a 300 m da costa, um gasoduto submarino e um terrestre até a conexão com o GasBol. Serão 15 milhões m³/dia, que permitirão o desenvolvimento industrial da região, como cerâmicas, metalurgias e fábricas de vidro, além de garantir a demanda das UTEs do Sul do país.
A francesa Engie, anteriormente GDF Suez, fusão entre as tradicionais Gaz de France e Suez, é um dos maiores players internacionais em energia e gás natural, com mais de 200 mil colaboradores em todo o mundo. Sua controlada brasileira, a Engie Brasil Energia, é a maior geradora privada de energia elétrica do país, e uma das maiores transportadoras de gás natural. Decidida a tornar-se neutra em carbono até 2045, a Engie elegeu o hidrogênio verde como uma das fontes a ser desenvolvida, sem reduzir a ênfase nas demais fontes renováveis, como eólica e solar, e anunciou recentemente a meta de ter em 2030 nada menos de 4 GW de capacidade instalada a partir do hidrogênio - para este objetivo, já tem 70 projetos em diversas fase de andamento em diferentes países. Segundo informou a CEO da Engie Brasil, estamos incluídos neste esforço - além de sermos parte da estratégia do grupo, o fato de 90 % do parque gerador brasileiro da empresa ser renovável faz com que sejamos vistos como modelo da direção global da Engie.
Concluído em 02/06/21 o cadastramento dos projetos que participarão do Leilão A-5 (energia para 2026), a ser realizado em 30/09/21, os especialistas se surpreenderam com o total da potência instalada, 93,9 GW, mais de metade da atual matriz elétrica do país, e com a diversidade das fontes geradoras. Os 1694 projetos são solares (32,3 GW), eólicos (22.8), a gás natural (34,6), hidráulicos (2,1), biomassa (1,5), carvão (1,3) e de resíduos sólidos urbanos, RSU (0,3 GW). Além do destaque das UTEs a gás natural - só no Rio de Janeiro concorrem 17 projetos, totalizando 15,1 GW - a novidade vem das usinas de resíduos sólidos urbanos, uma fonte que faz sua primeira participação em leilões, e uma solução que, ao tratar o lixo das cidades, poderá ser capaz de viabilizar o cumprimento das exigências do novo marco legal do saneamento.
Equacionado o problema da insuficiência no abastecimento de gás natural, com a construção do terminal de regaseificação de GNL de S.Francisco do Sul (TGS), a distribuidora regional de Sta.Catarina, a SCGás, prepara-se para uma forte expansão na sua rede, investindo a expressiva soma de R$ 457 milhões nos próximos quatro anos. O programa prevê a construção de mais 545 km de tubulações na rede atual, ampliando para 80 o número de municípios servidos pelo combustível, e elevando em 25% o volume consumido, especialmente por indústrias de porte médio. Em paralelo, até 2023 as indústrias de papel e celulose do Planalto Norte serão ligadas a uma rede isolada, abastecida por GNC-gás natural comprimido, levado por veículos apropriados, um esquema já implantado com sucesso na região de Lages em 2020. Sta.Catarina caminha para ser um do Estados mais bem servidos por gás natural.
As gigantescas reservas, ainda não totalmente avaliadas, a produtividade dos poços e a qualidade do petróleo extraído no pré-sal levaram a Petrobras a concentrar na região suas atividades - hoje, 55% do óleo refinado pela empresa vem do pré-sal. Outras empresas do setor têm a mesma visão, entre elas a norueguesa Equinor, anteriormente Statoil, que com seus associados Exxon, Petrogal e a governamental PSA, chegaram à decisão final de investimento (FID, na sigla em inglês) para o desenvolvimento do campo de Bacalhau, no pré-sal de Santos. A primeira fase, que consumirá US$ 8 bilhões, com recuperação estimada de 1 bilhão de barris de petróleo, terá 19 poços interligados a um FPSO da Modec, já contratado, o que também já ocorreu com diversas firmas internacionais para as instalações submarinas. O primeiro óleo, 220 mil b/d, é esperado para 2024.(em inglês).

31 maio 2021

O projeto integrado Azulão - Jaguatirica II, da Eneva, um dos mais interessantes e arrojados empreendimentos em construção no país, iniciou em 13/05/21 o comissionamento das instalações de Azulão, na bacia do rio Amazonas, a cerca de 200 km a sudeste de Manaus. O campo terá um cluster de produção de gás natural, com três poços, estação de tratamento do gás (UPGN), unidades de liquefação, armazenamento e carregamento de GNL, e um gerador de 20 MW que garantirá o suprimento de energia do conjunto. O investimento está orçado em R$ 1,9 bilhões, e além de abastecer a termelétrica em montagem em Boa Vista,RO, poderá levar o GNL excedente, via rodovia ou hidrovia, a novos clientes da região amazônica.
Segundo a Abegás, entidade que reúne as distribuidoras regionais de gás natural do país, o consumo do combustível durante o primeiro trimestre de 2021 (1T21) alcançou a média de 70,7 milhões m³/dia, uma alta de 12,3% sobre igual período do ano anterior. Apesar de ter sido obtido na comparação com uma fase de retração econômica, e de parte do ganho ser proveniente do segmento termelétrico, uma função das condições climáticas, o crescimento do consumo foi expressivo, principalmente pelo segmento industrial, que funciona como indicador da atividade, e o que tem as maiores possibilidades de expandir-se com os novos marcos regulatórios agora em vigência. Já são 3.500 indústrias ligadas às redes de 16 distribuidoras, que consumiram 28,4 milhões m³/dia no 1T21, uma alta de 7,2% em um ano. Resta saber se estes ventos favoráveis permanecerão, em face do reajuste do preço do gás vendido pela Petrobras às distribuidoras, ainda pendente de negociação entre as partes.
A abertura do mercado de gás natural a empresários privados vem apresentando resultados acima do esperado em diferentes áreas da atividade. Uma prova desta diversidade está no abastecimento do produto às distribuidoras, antes restrito à Petrobras - a Chamada Pública CP 22, feita em conjunto pelas cinco empresa do Sul (MSGás, Compagás, SCGás,Sulgás e Gás Brasiliano), encerrada em 30/04/21, teve 13 participantes, e mais de 130 propostas, com várias modalidades de suprimento, como produção terrestre convencional, biometano ou importação de GNL. Embora ainda haja pontos que demandam definição pela ANP, a CP 22 poderá resultar em fornecimento de até 6 milhões m³/dia, atendendo aos objetivos de concorrência de preços, exploração de novas fontes e mais agentes econômicos no setor.
Embora seja no momento alvo de pesadas criticas internacionais, várias delas procedentes, o Brasil tem potencial para tornar-se um dos líderes da transição energética que visa o equilíbrio climático. Em recente encontro no CEBRI - Centro Brasileiro de Relações Internacionais, o presidente da consultoria PSR assinalou a expressiva descarbonização de nossa matriz elétrica, 85% da qual é gerada por fontes renováveis, fazendo com que as emissões de gases de efeito estufa do setor sejam apenas 3% do total do país, quando a média mundial é de 25%. Nosso objetivo, dizem os especialistas, deverá ser o uso desta energia elétrica abundante, barata e renovável para descarbonizar o setor de combustíveis, ainda um emissor considerável, e buscar onde é é possível eletrificar em outros segmentos da economia. - isto, evidentemente, reduzindo o desmatamento da Amazônia e as queimadas sazonais nesta região e no Pantanal.
Pouco cotado até dois anos atrás, o hidrogênio entrou definitivamente na corrida para tornar-se o combustível verde do futuro. Já com a tecnologia de produção e armazenamento dominada, e em fase de construção em diversos países, desenvolve-se agora a fase de transporte, especialmente delicada, uma vez que o hidrogênio líquido tem que ser mantido a 253°C negativos, apenas 20°C acima do zero absoluto, e quase 100°C a menos que o GNL. Os japoneses saíram na frente - a Kawasaki já construiu um navio protótipo, que executa no momento sua prova de mar, e espera entregar unidades comerciais até o final da década. Outros estaleiros asiáticos, como os da Coréia do Sul, e europeus, incluindo Noruega, França e Alemanha, estão também empenhados em desenvolver soluções para o transporte marítimo de hidrogênio, o elo que falta para o pleno uso do novo combustível (em inglês).

15 maio 2021

A Supergasbras, uma empresa do grupo holandês SHV Energy, está entre as maiores distribuidoras brasileiras de GLP, gás liquefeito de petróleo, combustível que, além de muitas indústrias e comércios, atende a mais de 50 milhões de residências do país - o gás natural canalizado, embora em expansão rápida, face às suas vantagens logísticas, ambientais e de segurança, ainda não chega a 6 milhões de consumidores brasileiros. Dentro de seu plano de sustentabilidade e descarbonização, e usando as facilidades oferecidas pelo Ambiente de Contratação Livre de Energia (ACL), o chamado Mercado Livre, a Supergasbras tem sua energia contratada com empresa operadora de usinas eólicas (70%), solares (24%) e hidrelétricas (6%). Com isto, além da redução das despesas com energia, tem suas emissões de CO² diminuídas em 95%. Um caminho a ser seguido.
A MSGás, distribuidora estadual de gás natural de Mato Grosso do Sul, fundada em 1998, tem desde seus primeiros anos abastecido grandes consumidores, como a térmica Willian Arjona, de 206 MW, em Campo Grande, a primeira usina a operar (2001) com gás natural vindo do Gasbol. Em Três Lagoas, principal polo de desenvolvimento do Estado, a MSGás supre o combustível por tubulações a parques industriais como as fábricas de celulose da Suzano e da Eldorado, ou ao centro de processamento de soja da americana ADM - Archer Daniels Midland, uma das maiores empresas internacionais de comércio de grãos - juntas, estas indústrias respondem por quase metade das exportações do Estado para o exterior. Um exemplo do que pode ocorrer com uma região do interior do pais quando há ampla disponibilidade de gás natural.
Em um momento de grande enfoque mundial na preservação ambiental, usinas WTE (Waste-to-Energy) ganham espaço - elas podem resolver o grave problema do lixo urbano, e ainda produzir energia elétrica. Segundo a ABREN- Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos- já operam hoje 2.448 WTEs em todos os continentes, 520 delas na Europa. No Brasil, embora o país produza cerca de 100 mil ton. de resíduos urbanos por dia, a técnica é quase desconhecida, apenas duas unidades, quando a ABREN avalia que ela é aplicável a 28 regiões metropolitanas, totalizando 2,3 GW e dando destino adequado aos lixões e aterros sanitários hoje existentes - além de evitar as sanções decorrentes do novo marco legal do saneamento (lei 14026\2020). A cidade de São Paulo e seus arredores, com 21 milhões de habitantes, poderia ser o primeiro objetivo das usinas WTE.
A pandemia não reduziu o ímpeto mundial de crescimento das usinas geradoras a partir de fontes renováveis - segundo o relatório Renewable Energy Market Update 2020, da AIE - Agência Internacional de Energia, a capacidade de geração renovável adicionada em 2020 foi de 280 GW, uma vez e meia a nossa atual matriz elétrica, e comparável à da ASEAN, grupo de dez países do Sudeste asiático. Novos 114 GW de usinas eólicas e cerca de140 GW de solares fotovoltaicas foram instalados no ano, com a China liderando uma extensa relação de países. A AIE estima que este notável ritmo de expansão seguirá ocorrendo, com mais 270 GW este ano e 280 GW em 2022, assinalando que não foram levados em consideração os efeitos das novas metas estabelecidas pelo Governo americano, que poderão elevar ainda mais os números previstos.
Apesar dos esforços de muitos países e organizações internacionais, como a ONU, o consumo mundial de carvão para geração elétrica (carvão termelétrico) continua em expansão em 2021, após ligeira queda no ano anterior, decorrente da pandemia - China, Índia e EUA, os três maiores consumidores, estão acima dos níveis do início de 2020, com a Bloomberg estimando o crescimento americano em 16% neste ano. Na Rússia, onde as preocupações ambientais são limitadas, um dos maiores depósitos de carvão do mundo, em Elga, no extremo oriental da Sibéria, teve sua exploração por empresário privado aprovada recentemente. Em local onde a temperatura chega a 60°C negativos, a jazida tem 2,2 trilhões de toneladas de carvão estimadas, e se insere na estratégia russa de aumentar o uso do produto (termelétrico e siderúrgico) em até 50% nos próximos quinze anos (em inglês).

02 maio 2021

Em entrevista concedida em 16/04/21, o presidente da Shell no Brasil confirmou o interesse da empresa em novos projetos no país (onde opera há mais de 100 anos) em diferentes áreas ligadas à energia, com destaque para o gás natural. Já com um empreendimento em construção, a UTE Marlim Azul, de 565 GW, uma parceria com a Mitsubishi e a Pátria Investimentos - a primeira térmica a usar gás do pré-sal - a Shell deverá comercializar o combustível no mercado livre a partir do início de 2022. Assim que outorgados, serão executados projetos de usinas solares e eólicas onshore, enquanto aguarda a viabilização da contrução de eólicas offshore, uma prioridade mundial da empresa.
O uso do GNL no Brasil está em rápida expansão - até há pouco tempo restrito a três terminais de regaseificação da Petrobras no Ceará, Bahia e Rio de Janeiro, já é hoje disponível em Sergipe, e em breve chegará a Pernambuco, Sta.Catarina e Pará, em grande parte graças à ação da norueguesa Golar, adquirida pela americana New Fortress Energy em janeiro/21. Em Barcarena, no trecho paraense do rio Amazonas, o GNL será recebido em um terminal de regaseificação, e fornecido à Hydro, controlada pela também norueguesa Norsk Hydro, que ali opera uma refinação de alumina, a Alunorte. Além de substituir o óleo combustível hoje usado pela Hydro, e alimentar uma termelétrica local, o GNL será disponibilizado ainda em forma líquida a outros consumidores próximos. Um passo á frente na preservação ambiental da região.
O pico da demanda global por petróleo, um tema muito discutido há dez anos atrás, volta a ganhar atenção com as fortes oscilações desta época de pandemia. Recente estudo da Bloomberg para o banco Goldman Sachs prevê que o principal setor consumidor, os transportes (43%), começará a reduzir sua demanda em 2026, face ao crescimento dos veículos elétricos - mas o consumo total continuará em pequena elevação, especialmente com o uso mais nobre do produto, como matéria prima da petroquímica. A IEA, International Energy Agency, talvez a mais conceituada previsora, fala em estabilidade após 2030, contra estimativas da BP (já estaríamos no pico), ou da Wood Mackensie, que vê o ponto de inflexão em 2023. De qualquer forma, um alerta para que sejamos mais rápidos em desenvolver nossas grandes reservas.
O Amazonas tem no momento uma expressiva elevação no uso do gás natural - sua distribuidora estadual, a Cigás, apresentou no primeiro semestre de 2021 um crescimento de 75,7% no número de consumidores, chegando a 5,3 mil ligações em Manaus e outros cinco municípios, e espera quadruplicar o total de clientes até 2025, com pesado investimento em redes de tubulação. Entre os consumidores, estão sete termelétricas, totalizando 960 MW, o que faz da Cigás a terceira maior em volume de vendas entre as distribuidoras regionais do país. Por outro lado, a oferta de gás também deverá expandir-se - a Eneva procura clientes para seu GNL a ser produzido no campo de Azulão, e a New Fortress Energy, que adquiriu a Golar Power, faz pesquisa semelhante para a venda de GNL a partir do terminal fluvial em construção em Barcarena,PA.
A geração elétrica a partir de fonte eólica no Brasil vem superando as estimativas, e ao final do primeiro trimestre de 2021 (1T21) chegou a 18 GW de capacidade instalada, ou 10,3% da matriz elétrica do país, a segunda maior entre as fontes, só perdendo para as hidrelétricas. De acordo com a ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), temos hoje 695 parques e 8.300 aerogeradores em operação, cuja construção foi possível graças ao crescente complexo fabril brasileiro, às condições favoráveis de financiamento e ao baixo custo da energia produzida, amplamente aproveitado pelo mercado livre. Também segundo a ABEEólica, em 2024 teremos 28 GW instalados, apenas considerando os leilões já realizados, e sem ter tangenciado o potencial eólico offshore, cujos ventos ( e consequentes fatores de capacidade) são ainda superiores aos excelentes ventos terrestres brasileiros.

14 abril 2021

Segundo o Boletim Mensal da ANP, referente a fevereiro/21, a produção de petróleo e gás natural no país teve no período a média de 3,643 milhões boed, dos quais 2,819 milhões b/d são de petróleo (5,1% a menos na comparação anual), e 131 milhões m³/d de gás natural (aumento de 1,7%, na mesma base comparativa). A produção proveniente do pré-sal chegou a 2,596 milhões boed, representando 71,3% do total - isto com apenas 118 poços em operação. Apesar do crescimento da produção de outros campos do pré-sal, como Búzios, onde estão alguns dos poços recordistas de produtividade, o campo de Tupi (ex-Lula) ainda liderou, com 901 mil b/d de petróleo e 41,9 milhões m³/d de gás natural.
O hidrogênio sempre esteve incluído entre as fontes sustentáveis de geração elétrica, mas até dois anos atrás eram poucos os investimentos na sua viabilização comercial. Não mais - com os avanços recentes do hidrogênio verde (assim chamado por ser obtido por eletrólise da água, e não de hidrocarbonetos, como o gás natural), há no momento uma verdadeira corrida aos novos projetos de produção de energia elétrica a partir do hidrogênio. Segundo a Rystad Energy, conceituada consultora e pesquisadora, temos hoje 76 GW de capacidade instalada em projeto nos cinco continentes, incluindo EUA, Alemanha, França, Austrália, Coréia do Sul, Japão, e principalmente China, para onde estão voltados os olhos da comunidade tecnológica. A transição energética pode mudar de rumo.
A Irena, International Renowable Energy Agency, sediada nos Emirados Árabes, uma associação de 160 países para o desenvolvimento de fontes renováveis de energia, divulgou nestes dias seu relatório de 2020, que demonstra a notável expansão destas fontes na matriz elétrica mundial. No ano, foram novos 260 GW de capacidade instalada, 50% a mais que em 2019, contra apenas 60 GW de aumento em projetos de fontes fósseis. As eólicas quase dobraram sua potência, seguidas de perto pelas solares, ambas impulsionadas principalmente pela China e EUA, onde gigantescos parques são constantemente inaugurados. O aumento, entretanto, foi generalizado e, além da Ásia e América do Norte, incluiu a África, Oceania e América do Sul, com destaque para o Brasil.
A sanção presidencial ao novo marco legal do mercado de gás natural, em 08/04/21 (Lei 14.134/21), embora tenha tido sua comemoração ofuscada pelo enorme aumento no preço do insumo fornecido pela Petrobras às distribuidoras, consolidará as modificações já visíveis nos vários setores da atividade. No clima da abertura, a NTS - Nova Transportadora do Sudeste, controlada pela Brookfield, que já buscava novos clientes para conectá-los à sua rede, abriu chamada pública para ofertas de suprimento de novos fornecedores, produtores ou importadores de GNL, a partir de 2022. Em outro movimento, a NTS negocia com as outras duas grandes transportadoras da país, a TBG, operadora do GasBol, e a TAG - Transportadora Associada de Gás, controlada pela Engie, para uma eventual chamada pública integrada, que cobriria o território nacional.
Como nossos leitores estão informados, Sta.Catarina tem seu suprimento de gás natural limitado ao GasBol , e este já atingiu seu limite há tempos. Pressionada pela forte demanda não atendida, a distribuidora local, a SCGás, vê no aporte de GNL importado a solução mais viável e rápida para este problema - o Terminal Gás Sul (TGS), a ser operado pela Golar, projetado para armazenar e regaseificar GNL em São Francisco do Sul, será capaz de aumentar em 50% a oferta atual. O GNL recebido e regaseificado poderá ser parcialmente injetado no GasBol, usado para geração elétrica ou, ainda como GNL, transportado em veículos adequados até o interior do Estado, uma das especialidades da Golar. O empreendimento, em fase de licenciamento ambiental, está orçado em R$ 500 milhões, e poderá trazer até R$ 320 milhões anuais aos cofres de Sta.Catarina.
Apesar da forte pressão que sofre em várias partes do mundo, a geração elétrica a carvão continua apresentando crescimento na Índia e em países menos desenvolvidos da Ásia e África, pela ampla disponibilidade do combustível, baixo custo e facilidade de manuseio. No Japão, que está em processo de redução das próprias emissões, há uma forte indústria de fabricação de usinas a carvão, que são exportadas para estes países com o apoio e financiamento do Governo japonês. Atendendo aos apelos da ONU e de outras instituições, este apoio será retirado a partir de abril/21, e só será concedido em casos em que for possível comprovar a falta de outras opções. Algo positivo no difícil caminho da descarbonização do planeta (em inglês).

28 março 2021

O suprimento de gás natural em Sta. Catarina é praticamente limitado pelo volume recebido do GasBol, o que tem retardado a expansão da distribuidora local - em fevereiro/21, a SC Gás vendeu apenas 2,141 milhões m³/dia, face a uma crescente demanda não atendida. Com a liberação do mercado, a SC Gás e outras distribuidoras sulinas lançaram em início de março/21 uma Chamada Pública, incluindo o biogás/biometano entre as possibilidades de suprimento - uma boa oportunidade de desenvolvimento desta fonte, que tem em Sta, Catarina um potencial de produzir até 3 milhões m³/dia, segundo estudo da universidade estadual, a UFSC, em razão da ampla geração de resíduos orgânicos provenientes da pecuária e agricultura do Estado. Uma solução com efeitos positivos na economia, no meio ambiente e na meta da SCGás de levar o gás natural ao interior catarinense.
Nos leilões de energia nova A-3 e A-4, a serem realizados em junho/21 pela EPE, cadastraram-se 1.841 empreendimentos, dos quais 1.447 figuram nos dois leilões. O total oferecido chega a 66.862 MW de potência instalada, surpreendentes 38% da atual matriz elétrica brasileira. A fonte solar, favorecida em nosso país com excepcional insolação, dominará os leilões, com 1.050 projetos, totalizando 41,8 GW, seguida pela eólica, igualmente beneficiada pelos ventos onshore de nosso território (700 parques, 22,6 GW). Há ainda pequenos projetos hidrelétricos (61 usinas, totalizando 1GW), e térmicos (30 instalações, 1,3 GW). O Nordeste, onde temos as melhores condições climáticas, concentra os novos projetos - Bahia (596), R.G.do Norte (259), Ceará (193) e Piauí (189). O panorama nordestino está mudando.
A SCGás, como a grande maioria das distribuidoras regionais brasileiras de gás natural, priorizou na primeira década deste século a área litorânea do país para o desenvolvimento de sua estrutura de transporte, dada a facilidade de oferta e localização dos principais consumidores. A partir de 2010, entretanto, a distribuidora catarinense iniciou seu projeto de interiorização do uso do combustível, visando atingir 16 municípios distantes do litoral, através da construção de um gasoduto de 230 km, o Serra Catarinense, ousado para o porte da SCGás à época. Dez anos depois, com investimento de R$ 130 milhões, foram lançados 100 km, ligando milhares de clientes, e agora o trecho que falta, equacionado no orçamento da empresa, será construído até 2025, chegando a Lages, o ponto mais distante. Um considerável esforço, que terá amplo efeito na economia do Estado.
Antecipando-se à aprovação do novo marco regulatório do gás natural pelo Congresso, a Assembleia Legislativa do Amazonas promulgou em 10/03/21 sua "lei do gás", que permite a distribuição de gás natural no Estado por outras empresas além da Cigás, inclusive em forma de GNL.A permissão é muito favorável à Eneva que, incentivada por resultados econômicos excelentes, investe pesado na região - com o projeto Azulão-Jaguatirica II seguindo como previsto, a empresa planeja distribuir GNL e condensado, partindo inicialmente do próprio campo de Azulão, cujas reservas são bem maiores que o exigido pela térmica em construção em Boavista, RO. Além disto, se a Eneva concluir as negociações com a Petrobras para a compra dos ativos de Urucu, terá também a possibilidade de comercializar a produção que excede à escoada pelo gasoduto Urucu-Coari -Manaus, volume hoje, reinjetado, por falta de consumidores.
A aprovação do novo marco legal do gás natural pelo Congresso, em 17/03/21, foi recebida com otimismo pelos especialistas e agentes do setor. Em entrevista, Cláudio Frishtac, da Inter.B Consultoria, responde aos principais questionamentos sobre os efeitos da nova lei, avaliando que, nos próximos dez anos, algo como US$ 60 bilhões serão investidos em produção, escoamento e consumo do combustível. A projeção baseia-se na redução pela metade prevista no preço do gás, decorrente principalmente do aproveitamento dos 55% do gás produzido no pré-sal, hoje reinjetados por falta de infraestrutura de escoamento. Um dos demais efeitos destacados pelo economista foi a possibilidade de grande expansão do uso domiciliar do gás natural, hoje restrito a menos de 5 milhões de residências, contra quase 66 milhões servidas por GLP ou, ainda pior para o meio ambiente, 14 milhões que usam lenha.
A Equinor (antiga Statoil) tem o Brasil como principal foco para investimentos em O&G fora de seu país, a Noruega. Entre os novos projetos está o desenvolvimento do campo offshore BM-C-33, no pré-sal da bacia de Campos, onde é parceira da Repsol Sinopec (35%) e Petrobras(10%). O projeto inclui um FPSO, operando a 200 km do litoral e a 2.900 m de lâmina d'água, que processará o gás, o condensado e o óleo extraídos, este último a ser carregado em navios. O gás natural será escoado em gasoduto até as instalações da Petrobras em Cabiúnas,RJ, onde será tratado e conduzida à malha nacional - um volume de cerca de 16 milhões m³/dia, expressivo em relação à atual oferta de gás. A recente aprovação da liberação do mercado de gás no Brasil foi fundamental para a decisão de implantação do projeto.
A participação da iniciativa privada no mercado de gás natural brasileiro vem produzindo efeitos visíveis em vários setores da atividade, entre eles o transporte do combustível em gasodutos. A NTS- Nova Transportadora do Sudeste, controlada por um fundo da Brookfield (82,35%) desde 2017, é um bom exemplo - na área operacional, a empresa encerrará em julho/21 seu contrato com a Transpetro, e assumirá a operação da rede com seu pessoal, a partir de um novo centro de controle, e criou uma estrutura comercial para trabalhar com vários clientes, inclusive conectando-os à rede por ramais de tubulação. Uma chamada pública, iniciada nestes dias, identificará os novos clientes, com os quais a construção e operação dos ramais será negociada. O projeto mais maduro é a ligação das novas unidades de processamento de gás (UPGNs) do polo GasLub (ex-Comperj), no Rio de Janeiro.
O hidrogênio é em geral obtido a partir de hidrocarbonetos, como o metano do gás natural, e seu maior consumo atual é a amônia, base dos fertilizantes nitrogenados. Mais recentemente, como noticiamos, o chamado "hidrogênio verde", obtido da eletrólise da água, vem crescendo como uma das fontes sustentáveis de geração elétrica. Informa-se agora que o hidrogènio foi aprovado em testes feitos na usina siderúrgica de Duisburgo,da Thyssenkrupp, ao ser injetado em um alto forno da empresa, substituindo o carvão como agente redutor do minério de ferro, com drástica redução do CO² produzido no processo. Um forte passo na transformação da indústria siderúrgica rumo à desejada neutralidade climática (em inglês).

28 fevereiro 2021

Entre as diferentes fontes de geração elétrica sustentáveis, o hidrogênio verde (o que não provém de fontes fósseis, como o gás natural), até agora em segundo plano, deverá assumir em breve papel de destaque no esforço de transição energética e descarbonização da economia, especialmente na Europa - a União Européia está disponibilizando grandes somas para os chamados projetos importantes de interesse europeu comum (IPCEI, na sigla em inglês). Neste sentido, a alemã Siemens Energy e a francesa Air Liquide uniram-se para o desenvolvimento em larga escala da tecnologia da produção de hidrogênio utilizando eletrolizadores PEM, dispositivos que efetuam a eletrólise da água, liberando H² através de uma membrana. Também na Espanha, há notícias do interesse da Endesa, do grupo Enel, em desenvolver 23 projetos de obtenção de hidrogênio verde e a consequente geração elétrica, um investimento estimado em 2,9 m
Com a recente abertura do mercado de gás natural, associada ao desinvestimento de ativos da Petrobras, criaram-se condições para a ampliação de nossa rede de gasodutos, claramente insuficiente para a expansão do consumo do combustível. A TAG - Transportadora Associada de Gás, adquirida em junho/19 pela Engie (65%) e por um fundo canadense (35%) - a maior rede de gasodutos do país, com 4.500 km de dutos de transporte atravessando dez Estados - já se movimenta neste sentido, e realiza no momento um mapeamento visando identificar interessados em receber seu gás via gasodutos, os quais deverão formalizar suas intenções até 10/03/21, primeira etapa do processo de construção de novos dutos. A TAG já obteve contratos de fornecimento a duas fábricas de fertilizantes, na Bahia e em Sergipe, e visa agora grandes consumidores, como a GNA, no Porto do Açu, RJ, e a Celse, com a UTE Porto de Sergipe. A empresa calcula investir até R$ 1,5 bilhões em novos dutos nos próximos cinco anos.
A EDF - Electricité de France, fundada em 1946 como estatal, e desde 2014 com 30% de capital privado, é hoje o maior gerador de energia elétrica da Europa (22% do total), e tem atuação mundial, chegando a 120 GW de capacidade instalada, com 158 mil colaboradores. No Brasil desde 1996, seu principal ativo no país é a UTE Norte Fluminense, em Macaé, RJ (827 MW), mas tem vários outros interesses, como a participação na hidrelétrica de Sinop, MT (402 MW), as empresas Citelum (iluminação pública) e Framatome (engenharia), e a EDF Renováveis, que em breve operará 1 GW de usinas eólicas e solares. Decidida a expandir-se na geração elétrica no Brasil, a EDF deverá participar dos leilões de energia nova em junho/21 com projetos de térmicas a gás natural, além de efetivar a ampliação da Norte Fluminense com uma segunda UTE, de 1.713 MW (já com licença prévia concedida), e vários novos projetos eólicos e solares. Mais um grande player internacional torna-se um macro-investidor no Brasil.
A ANP, através seu Painel Dinâmico de Produção de Petróleo e Gás Natural, informa que, em janeiro/21, a produção brasileira de petróleo foi de 2,870 milhões b/d, um aumento de 5,26% sobre o mês anterior, e a de gás natural chegou a 136,33 milhões m³/dia, mais 7,36%, na mesma comparação (3,737 boed no somatório). A agência informa também que nada menos de 50% do total foi obtido em dois mega-campos do pré-sal, Tupi (ex-Lula) e Búzios, nos quais a produtividade tem alcançado recordes, com poços extraindo acima de 60 mil boed - o que contribui para a contínua queda do preço de extração, agora abaixo de US$ 3/barril. A produção brasileira segue fortemente concentrada no offshore do Estado do Rio de Janeiro, que no período respondeu por 79,86% do total do petróleo e 61,30% do gás natural.
A geração elétrica a partir de fonte eólica em operação no Brasil chegou a 18 GW de capacidade instalada no início de fevereiro/21, a segunda maior de nossa matriz elétrica (10,3%), só inferior às hidrelétricas. São 695 parques eólicos, todos onshore, com mais de 8.300 aerogeradores, segundo informa a ABEEólica - Associação Brasileira de Energia Eólica, acrescentando que, até 2024, apenas contando os leilões já realizados, a fonte eólica avançará para 28 GW. As vantagens econômicas que os grandes consumidores de energia têm no mercado livre são o fator mais relevante nesta forte expansão, tornada viável pela instalação no país de um modeno parque de fabricação de componentes, e criação de um eficiente sistema de financiamento. Os ventos brasileiros, entre os melhores do mundo, certamente concorrem para a notável performance do setor.