25 junho 2020

A divulgação do Boletim Mensal da Produção de Petróleo e Gás Natural, da ANP, referente ao mês de abril/20, ainda não mostra os eventuais efeitos da Covid-19 na produção brasileira de O&G. Se bem que houve ligeira redução na comparação mensal (-0,5%), tivemos considerável aumento anual (+13,7%), com um total de 3,738 milhões de boed, sendo 2,958 milhões de b/d de petróleo e 124 milhões de m³/dia de gás natural. O pré-sal vai assumindo maior participação (2,059 milhões de b/d de óleo e 86 milhões de m³/dia de gás), atingindo 69,5% do total - isto com apenas 113 poços em operação. O campo de Lula, um dos maiores do mundo, já chega a 1,033 milhões de boed, mas em breve terá um competidor, o campo de Búzios, que agora opera o FPSO mais produtivo do país.
Adriano Pires, do CBIE - Centro Brasileiro de Infra Estrutura, vê como muito positivo o engajamento do BNDES no projeto do novo mercado de gás natural, lançado pelo Governo Federal em 2019 com o Termo de Compromisso da Petrobras com o Cade, abrindo mão de seu virtual monopólio neste mercado - a recente publicação do relatório intitulado "Gás para o desenvolvimento" pelo grupo de infraestrutura do Banco, expõe com clareza os gargalos para a viabilização do projeto, e aponta caminhos para superá-los. A longa experiência do BNDES na construção de modelos de desenvolvimento de setores da nossa economia poderá compatibilizar o enorme volume de gás associado ao petróleo do pré-sal, hoje em grande parte reinjetado, com a insuficiência da rede de escoamento (dutos e UPGNs) e a exiguidade do atual mercado consumidor.
Os diferentes investimentos que a Prumo Logística e seus associados vêm executando no Porto do Açu,RJ tiveram seu ritmo reduzido em face da Covid-19, mas continuam dentro dos limites da segurança. Em 12/06/20, chegou ao porto o navio BW Magna, um FRSU (Floating Regaseification Storage Unit), que receberá as cargas de GNL importado a serem usadas nas duas UTEs em construção, a GNA I, de 1.388 MW, já com mais de 90% concluídos, e a GNA II, em fase inicial - e ainda sobrará muito gás dos 21 milhões de m³/dia que o navio regaseifica. A empresa GNA, além da Prumo, tem a participação da Siemens, que forneceu as turbinas e demais equipamentos, e da BP, que suprirá o GNL.
A capacidade instalada de geração eólica, hoje em 16 GW, chegará a 24,2 GW em quatro anos, considerando apenas os leilões já realizados e contratos firmados no mercado livre, diz o Boletim Infovento, da Abeeólica - Associação Brasileira de Energia Eólica, divulgado em 15/06/20. Com os números atuais, a fonte eólica representa 9,3% da matriz elétrica brasileira, só atrás da fonte hidráulica - são 637 parques em 12 Estados, com 7.736 aerogeradores, todos onshore. Ainda segundo a Abeeólica, o forte avanço de 2019 (+ 15,5%) decorreu, principalmente, dos investimentos destinados ao mercado livre, com grandes parques no litoral e interior do Nordeste, tendência que deve continuar, mesmo com a queda da demanda por energia elétrica hoje observada.
O atraso tecnológico e ambiental de não termos veículos pesados (caminhões e ônibus) a gás natural, que nos colocava em posição de inferioridade em relação aos nossos vizinhos sul americanos, não mais existe. Em 17/06/20, a Scania entregou ao Grupo Charrua, do R.G. do Sul, o quinto caminhão movido a GNV/biometano fabricado no Brasil, e já tem outros 23 comercializados, apesar da lentidão dos negócios nesta fase de Covid-19. O caminhão, modelo R 410, é equipado com motor do ciclo Otto da moderna Tecnologia de Nova Geração da Scania, e não uma adaptação de motor diesel para uso de gás, e assim sua operação emite apenas uma fração do CO² do equivalente diesel. Além da redução das emissões danosas ao meio ambiente, o R 410 tem nível de ruído 20% menor, uma vantagem em serviços urbanos.
A compra de 90% da TAG (Transportadora Associada de Gás) pela franco-belga Engie e um fundo canadense de pensões, feita em final de 2019 pelo elevado valor de US$ 8,6 bilhões, tem se revelado um bom investimento, diz o CEO da empresa no Brasil, Eduardo Sattamini - o custo do financiamento está mais baixo que o previsto, houve liberação de empréstimo da BNDES, as obras continuam em andamento (embora em ritmo menor, com a Covid-19), e há possibilidade de adquirir os 10% restantes da Petrobras. A Engie Brasil, sucessora da Tractebel, é a maior geradora privada de energia do país, com 31 plantas totalizando 7.866 MW instalados (6,2% de nossa matriz elétrica), e segue investindo em renováveis e linhas de transmissão.
Com o final do contrato de fornecimento de gás boliviano à Petrobras, que deverá ser renovado apenas em parte, e dentro dos planos do Governo de abrir o mercado de gás natural à iniciativa privada, o MME deu autorização em 16/06/20 para que a Comercializadora de Gás, uma empresa do Grupo Cosan, contrate a importação de gás da YPFB. A autorização é para volumes de até 5 milhões de m³/dia, que serão utilizados para suprir a demanda das distribuidoras de gás canalizado do Sul e Sudeste do país, inclusive a Comgás, outra empresa do Grupo Cosan. O gás virá pelo Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), e será entregue na fronteira entre os dois países, no Estado de Mato Grosso do Sul.
A EIA - US Energy Information Agency, em seu relatório STEO - Short-Term Energy Outlook, de jun/20, diz que o mercado internacional de petróleo encaminha-se, mais rápido que o previsto, para uma situação de equilíbrio, com a recuperação acelerada da demanda (menos isolamento social) e o declínio mais acentuado da produção (acordo entre os produtores). Em maio/20, o consumo global foi de 82,9 milhões de barris diários (mb/d), mais 2,9 mb/d que o estimado, e a produção teve corte adicional de 0,5 mb/d -o que elevou o preço do Brent para próximo de US$ 40/ por barril. Mesmo com a melhora já observada, entretanto, o ano ficará longe de favorável ao petróleo - a EIA prevê para 2020 um consumo global médio de 92,5 mb/d, 8,3 mb/d de redução na comparação anual (em inglês)

08 junho 2020

A capacidade instalada de geração eólica no Brasil já ultrapassa 15 GW, e caminha para bem mais, graças aos excepcionais ventos que sopram em grande parte do território nacional. No entanto, diferindo dos demais países de produção expressiva, todos os parques geradores eólicos em operação no país, e mesmo os em construção, são onshore - ainda que distantes centenas de quilômetros do mar, há numerosas instalações de grande efíciência. Estudo recente da Universidade de Sta.Catarina (UFSC) sobre o potencial do offshore brasileiro poderá mudar o panorama, atraindo investidores para nossa costa - medições feitas por método considerado conservador indicam, entre zero e 100 m de profundidade, um potencial eólico de 1,3 TW (terawatts), e se considerarmos as 200 milhas da Zona Econômica Exclusiva, podemos chegar a surpreendentes 7,2 TW. Norte e Nordeste são destaques, mas há ventos de sobra em todo o nosso litoral.
O propósito anunciado em 2019 pelo Governo, de tornar o gás natural um produto de amplo consumo nacional, reduzindo seu custo com a entrada de novos agentes econômicos no mercado, parece mais próximo de realizar-se. O BNDES, através seu setor de Infraestrutura, propõem-se a financiar os elevados investimentos necessários à utilização do gás do pré-sal - gasodutos e UPGNs - sem os quais o gás associado ao petróleo tem que ser reinjetado ou queimado. O banco dispõem-se ainda a financiar o consumo, especialmente o industrial, como papel e celulose, siderurgia, fertilizantes e química, e também o automotivo, visando o transporte urbano.
O campo de Urucu, descoberto há 35 anos na bacia do Solimões, Amazonas, é o maior produtor terrestre de gás natural do país, acima de 11 milhões de m³/dia. O escoamento da produção, entretanto, está limitado à capacidade do gasoduto Urucu-Coari-Manáus, de 5,5 milhões de m³/dia (recém vendido à Engie), o que obriga à reinjeção de cerca de metade ou mais do volume extraído. Uma pequena parte deste gás tem agora um novo consumidor - foi inaugurada a UTE Coari, um empreendimento do grupo Siemens e da distribuidora local. Com capacidade instalada de 40 MW, operando em ciclo combinado (gás e vapor), a UTE Coari substituirá a energia hoje obtida do diesel, atendendo com vantagens econômicas e ambientais aos 85 mil habitantes da cidade.
A Petrobras segue rápido no objetivo de cumprir os compromissos assumidos com o Cade, relativos à abertura do mercado de gás natural para a iniciativa privada. Segundo informa a BNamericas, a estatal está entrando em contato com as empresas que já produzem o combustível no país (33 firmas, diz a ANP), oferecendo a possibilidade de acesso às suas Unidades de Processamento de Gás Natural (UPGNs), um passo decisivo para que os produtores privados possam comercializar o gás que produzem - hoje, sem este acesso, toda a produção é vendida à Petrobras. São 14 UPGNs instaladas no país, capazes de tratar 93,3 milhões de m³/dia, bem acima dos cerca de 60 milhões disponíveis para as vendas das distribuidoras.
Em webinar realizado em 02/06/20, o presidente da EPE ( Empresa de Pesquisa Energética) informou que não há necessidade de novos contratos de usinas em 2020, face à expressiva redução da demanda provocada pela Covid-19, correspondente a uma queda de 5 GW de capacidade instalada, extensível a um horizonte de médio prazo. Embora ainda tenha que confirmar o cancelamento dos leilões já programados, o MME já os suspendeu. Como se sabe, a capacidade instalada de geração elétrica brasileira já ultrapassa 170 GW, e crescerá substancialmente com as unidades em construção - só em gás natural, temos 3 GW prestes a operar (UTEs GNA-1,no Porto do Açu,RJ, e Porto de Sergipe,SE), além de várias usinas de fontes renováveis, como eólicas, solares e a biomassa.
A Shell está no Brasil desde 1913 - começou como Anglo Mexican Petroleum Products - e recentemente elegeu nosso país como um dos seus princioais focos nos próximos anos. Neste contexto, apesar do difícil panorama econômico que temos pela frente, o empresa decidiu iniciar ainda em junho/20 a construção da térmica Marlim Azul, de 565 MW, em Macaé - um empreendimento de US$ 700 milhões, no qual a Shell tem como sócios a Mitsubishi e a Pátria Investimentos. A UTE Marlim Azul tem significado especial no parque gerador térmico brasileiro, pois sua fonte, o gás natural, virá do nosso offshore - a primeira utilização deste enorme recurso por empresas privadas.
A produção de O&G do pré-sal brasileiro segue em crescimento, impulsionada pela qualidade do óleo extraído, mesmo em um ambiente global de restrições ao consumo e produção de combustíveis. Com o aumento do volume de petróleo extraído, cresce a necessidade de mais navios-tanque para o offloading (escoamento do óleo das plataformas às embarcações), hoje feito com 20 navios, que realizam cerca de 1800 offloadings por ano. Assim, a Petrobras contratou quatro novos navios, feitos sob medida na Coréia do Sul, o primeiro com chegada prevista para julho/20, e os demais nos meses seguintes. Com o Eagle Petrolina e seus três similares, a capacidade de escoamento de petróleo das plataformas, que hoje é de 2,067 milhões de b/d, chegará a 2,262 milhões de b/d quando à plena operação.
Depois de oito anos de crescimento, o mercado mundial de GNL teve nos primeiros meses de 2020 uma queda de 2,7%, ou 3 milhões de ton na comparação anual, informa a consultoria Wood Mackenzie. Com a forte expansão da oferta nos últimos anos, especialmente proveniente da liquefação do shale gas no Golfo do México (mas também de novas unidades na Austrália, Qatar, Rússia e outros países), o GNL já vinha com preço em baixa, mas agora temos cancelamentos de cargas - vinte delas nos USA. A redução da demanda é mais expressiva no Japão, o maior importador mundial, mas deverá ampliar-se na China e Europa, mesmo com a redução no suprimento por gasodutos que já ocorre nestes mercados, face ao preço competitivo do GNL (em inglês).

27 maio 2020

No momento em que a oferta mundial de petróleo excede largamente a demanda, a qualidade do produto torna-se elemento fundamental na competitividade - e neste aspecto o petróleo do pré-sal tem sido favorecido, entre outros pontos por seu baixo teor de enxofre, como temos noticiado. Perfurações recentes feitas no campo de Búzios, arrematado em 06/11/19 pela Petrobras (90%), em consórcio com as chinesas CNOOC (5%) e CNODC (5%), mostram petróleo de ótima qualidade, diz a empresa, a mesma já exibida em perfurações anteriores - e os volumes são abundantes, com a consequente redução no custo de extração
A redução nas atividades econômicas do país, consequente das restrições impostas pela Covid-19, poderá acarretar queda de até 18% na demanda por energia elétrica neste ano, diz estudo recém apresentado pela consultoria Kearney. Entre outras formas de avaliação, o estudo aponta a chamada elasticidade histórica do consumo de energia em relação ao PIB, que no Brasil tem sido da ordem de três vezes. Desta forma, no cenário mais crítico de queda do PIB, que poderá alcançar 6 % no ano caso as restrições permaneçam até julho/20, a redução na demanda por energia elétrica atingiria 18 % - o que, entre vários outros efeitos negativos, manteria a geração termelétrica quase inativa, operando apenas por inflexibilidade.
Como se sabe, a cotação internacional do gás natural é regulada pelo preço Henry Hub, expresso em dolares americanos por milhão de Btu (unidade térmica britânica), sendo que 1 mil m³ de gás contém 36 milhões de Btu. Com a redução geral de preços causada pela Covid-19, o Henry Hub entrou em forte queda - apenas entre 05/05/20 e 13/05/20, caiu de US$ 2,167/milhão Btu para US$ 1,771, redução de 17%. Como, desde janeiro/20, no contexto do Novo Mercado do Gás, o preço do gás fornecido pela Petrobras às distribuidoras é calculado pela cotação internacional, houve uma queda de 15% nos cinco primeiros meses do ano, mesmo considerando o forte aumento do dolar no periodo.
Mesmo nas condições adversas do momento, com a paralização de parte substancial da economia brasileira, a Petrobras prosegue com seu plano de desinvestimento de ativos, agora focando em unidades do parque termelétrico. Em 13/05/20, divulgou o início do processo de alienação de quatro usinas, totalizando 578 MW de potência instalada. Três delas, no Polo Camaçari, na Bahia - Arembepe (150 MW), Bahia 1 (32) e Muricy (147) - operam com óleo combustível, mas poderão ser convertidas para uso de gás natural. A quarta, a UTE Canoas, no R.G.do Sul (249 MW), já é bi-combustível. A empresa informa que todas estão em condições plenamente operacionais, e que o banco Goldman Sachs conduzirá as etapas seguintes do processo de alienação.
O Grupo Cosan, com forte presença no agro-negócio, distribuição de combustíveis (Raízen) e transporte (Rumo), tem voltado a atenção para o mercado de gás natural, onde já participa com destaque através da Comgás. Depois de anunciar em março/20 a Compass Gás e Energia, visando a privatização das distribuidoras regionais e térmicas a gás, a Cosan obteve agora autorização do MME para que outra controlada, a Comercializadora de Gás S/A, importe até 5 milhões de m³/dia de gás boliviano, em um contrato de três anos. O gás, que virá através do gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), e será entregue na fronteira entre os dois países, atenderá à demanda do mercado livre e de distribuidoras do Sul e Sudeste da país.
No primeiro trimestre do ano (1T20), os efeitos da Covid-19 não foram sentidos nas vendas das 23 distribuidoras regionais de gás natural - houve até um pequeno aumento de 2,82% na comparação anual, se bem que em grande parte motivado por expressivo crescimento do consumo termelétrico. Dados preliminares relativos ao 2T20, entretanto, apontam para cenário bem diferente, com forte queda global, em nível inédito nestes vinte anos de contínuo progresso. Segundo a Abegás, dados já apurados fazem prever redução de 35 a 40% nas vendas ao setor industrial, 40% no automotivo (GNV), e até 60% no comercial, o segmento mais afetado pelas medidas de isolamento. Agravando a situação, registra-se aumento na inadimplência, ainda não compensado por medidas já discutidas com o Governo Federal e BNDES.
A indústria do fracking do shale oil&gas já esteve perto de instalar-se no Brasil - há alguns anos, uma licitação da ANP teve várias áreas concedidas, em cinco diferentes regiões do país. Impedidas de iniciar os serviços, principalmente por pressões ambientais, as concessionárias não chegaram a montar seus canteiros de obras, e ficamos vendo de longe o sucesso da tecnologia nos EUA (Eagle Ford, Bakken e Permiano) e na vizinha Argentina (Vaca Muerta). Agora, quando os produtores de shale oil&gas estão em crise (seus custos de extração são mais altos que dos produtores convencionais), abre-se nova oportunidade no país, pelo menos no nível de conhecimento e viabilidade econômica - um projeto-piloto, incluído no plano de revitalização da exploração terrestre, o REATE, do MME, deverá facilitar o licenciamento ambiental e outras medidas que possibilitarão, no futuro, a exploração de nossas extensas reservas de shale oil&gas.
A EIA - US Energy Information Administration divulgou nestes dias seu STEO - Short Term Energy Outlook de maio/20, uma das mais conceituadas previsões sobre o mercado mundial de O&G. Nele vemos que a demanda mundial por petróleo, que em 2019 foi em média de 100,7 milhões de barris diários (b/d), deverá cair este ano para 92,6 milhões, uma redução de 8,1%, em face das restrições impostas pala Covid-19. A produção acompanhará a demanda, e afetará países não membros da OPEP (especialmente Rússia, EUA e Canadá, mas também Brasil e Noruega, entre outros), além dos países integrantes do grupo. Mesmo com produção menor, os preços deverão cair, da média de US$ 64/barril obtida em 2019 para US$ 34, uma queda de 47%. Para o gás natural, a EIA prevê uma redução bem menor - 3,7% na comparação anual, mas também com preço médio menor e diminuição das exportações americanas de GNL. Um futuro não muito brilhante (em inglês).

09 maio 2020

Superando as previsões anteriores do efeito da Covid-19 na economia brasileira, o consumo de energia elétrica deve reduzir-se em 12,5% em abril/20, na comparação com igual período de 2019, diz o ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico. A interrupção das atividades de grande parte dos setores produtivos, iniciada em meados de março/20, afetou especialmente a região Sudeste, onde o recuo poderá ser de 14%. A queda ocorre em um momento em que, com condições pluviométricas favoráveis, a geração hidráulica estaria a plena carga - o despacho térmico, que já seria baixo, será apenas por inflexibilidade.
A indústria americana de shale oil&gas é uma das mais prejudicadas com as consequências econômicas da atual pandemia - seus preços de extração são mais caros que os da maioria dos concorrentes, e seus poços têm rápida perda de produtividade ( até 60% em um ano), o que exige investimentos contínuos para a manutenção dos níveis de produção. Os efeitos da retração são visíveis especialmente na região do Permiano, no Texas e Novo México, com muitos produtores, em geral pouco capitalizados, paralizando suas instalações e dispensando milhares de trabalhadores. Segundo orgãos governamentais, como EIA - Energy Information Agency, ou privados como a IHS Markit, a queda atual, já da ordem de 20%, aumentará rapidamente se mantidas as atuais condições, e afastará as expectativas de tornar os EUA um dos maiores produtores mundiais de gás natural.
O crescimento da fonte solar na matriz elétrica brasileira tem se mantido, mesmo em anos de contração do PIB, como 2015/16, graças às inovações tecnológicas que a tornam mais barata, e à excepcional insolação do território do país. O mesmo pode ocorrer agora - segundo a Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), já ultrapassamos 5 GW de capacidade instalada, e vamos crescer mais. Como geração centralizada, são 2,68 GW, com 92 usinas em operação e R$ 25,8 bilhões em novas instalações contratadas em leilões. Em geração distribuída, temos 2,42 GW, e um mercado consumidor de 84 milhões de residências e comércios, dos quais apenas 3% já foram atendidos.
Dados divulgados pela ANP, referentes a março/20, mostram que a produção de petróleo e gás natural, incluindo todas as empresas que atuam no país (34), foi de 3,733 milhões de boed, uma queda de 1,3% na comparação com o mês anterior. A Petrobras, entretanto, mesmo tendo anunciado a partir de 26/03/20 um corte de 100 mil b/d, teve elevação de 2,3% na produção de petróleo, extraindo 2,187 milhão de b/d na média do período. O mesmo ocorreu, em menor escala, com a produção de gás natural - aumento mensal de 0,2%, chegando a 95,7 milhões de m³/dia.
O Brasil já tem 400 plantas de biogás em operação, 40% a mais em um ano, segundo a ABiogás - Associação Brasileira do Biogás - mesmo assim, uma fração mínima dos 137 milhões de m³/dia de seu potencial. Além do crescimento, observa-se uma sofisticação nas novas instalações, com maior rendimento em energia e aproveitamento de outros produtos presentes no processo. É o caso de duas novas usinas em Castrolândia, oeste do Paraná, que além de energia elétrica e biometano para veículos, entregarão também CO², utilizando tecnologia da empresa CH4 Solution - e poderão no futuro entregar também biofertilizantes
Apesar da grande redução da demanda global de petróleo, decorrente da paralização da economia causada pela Covid-19, a Petrobras continua aumentando suas exportações do combustivel, especialmente para a China. Como já noticiamos, a principal razão está na qualidade do óleo do pré-sal, com baixo teor de enxofre, capaz de enquadrar-se nas novas e rigorosas especificações do IMO 2020 (que reduziu este teor de 3,5 para 0,5%). Nestas condições, a empresa superou amplamente seu recorde de exportação de petróleo, que era de 771 mil b/d em dezembro/19, chegando a 1 milhão de b/d em abril/20 - um marco positivo, nestes tempos de escassez de boas notícias.
A Covid-19 continua a provocar fatos inusitados - a anglo-holandesa Shell anunciou em 30/04/20 um corte nos seus dividendos, uma decisão sem precedentes desde 1940, passando pelas diversas crises do petróleo e recessões como em 2008. O corte é grande - de 47 cents por ação para 16 cents, o que permitirá uma economia de US$ 10 bilhões ainda este ano. A primeira das cinco principais petroleiras a adotar esta medida ( ExxonMobil e BP mantiveram os dividendos, e Total e Chevron ainda não decidiram), a Shell já havia anunciado em março/20 uma redução nos investimentos e custos operacionais, não sendo ainda esclarecida sua posição no Brasil, onde é a terceira maior produtora de O&G (54,7 mil boed em março/20, segundo a ANP).
Segundo informa a Rystad Energy, em abril/20 menos de 300 novas operações de fracking foram iniciadas no Permiano, Eagle Ford e Bakken, as três grandes áreas produtoras de shale oil&gas dos EUA - uma queda de 60% em relação ao começo do ano. Como se sabe, a vida útil deste tipo de extração é muito curta, e a manutenção dos níveis de produção exige a continuidade das perfurações - em janeiro/20, foram 807. Para dar uma idéia da queda, diz a Rystad, na hipótese de não haver novas perfurações a partir de abril/20, a produção cairia em 1 milhão de b/d já em maio, 2 milhões em junho e até 3 milhões em outubro/20 (em inglês).

19 abril 2020

Em um momento em que, face à Covid-19, o consumo de energia elétrica cai no Brasil, com estimativas de redução de até 8% em abril/20, a capacidade instalada de geração aumentou em 2.047 MW no primeiro trimestre do ano (1T20), chegando a um total de 171.760 MW. Embora no período tenham entrado em operação vários parques eólicos e solares, o grande fator do aumento no 1T20 foi a liberação da produção da UTE Porto de Sergipe, da Celse, de 1.515 MW, alimentados por GNL importado, trazido e regaseificado pela Golar Power, sócia do empreendimento.
As reduções generalizadas de investimentos, decorrentes da atual pandemia, parecem não ter chegado ainda às distribuidoras regionais de gás natural. Um bom exemplo é a pernambucana Copergás, que mantém o planejamento orçado para 2020, de ampliar sua rede de tubulação em 94 km - dos quais 27 km já construídos no primeiro trimestre do ano, um aumento de 59% sobre igual período de 2019. Os trabalhos estão ganhando eficiência - em março/20 foram lançados 10 km, um recorde, o que projeta não só o cumprimento da meta, como talvez sua superação, chegando a 100 km em um ano.
Em fevereiro/20, a produção braasileira de petróleo e gás natural (O&G) apresentou redução de 6,2% em relação ao mês anterior - foram 3,783 milhões de boed, sendo 2,972 milhões de b/d de petróleo e 129 milhões de m³/dia de gás. A queda, que não pode ser atribuída ao COVID 19 (o primeiro caso foi confirmado em 26/02), nem à baixa dos preços do petróleo, deve-se, segundo a ANP, a paradas técnicas já programadas, especialmente ligadas à segurança das instalações. Apesar da sensível perda mensal, a produção de petróleo superou em 19,4% a de igual período de 2019, e a de gás natural foi maior em 17,1% na comparação anual. O pré-sal, que em fev/20 respondeu por 66% do total brasileiro com apenas 118 poços, também teve redução mensal, de 6,9%, mas aumentou sua produção em apreciáveis 36,8% na comparação anual.
O gás natural continua aumentando sua participação como combustível marítimo, confirmando relatório do Lloyds Register de 2019, prevendo que seis entre dez navios encomendados teriam motores a GNL. A razão principal é a nova regulamentação da Organização Marítima Internacional, que limita a 0,5% o teor de enxofre no combustível a partir de 2020 - o GNL é virtualmente isento deste elemento. Mesmo os maiores petroleiros em construção, como dois VLCCs de 300 mil ton da francesa Total, a serem entregues em 2022, utilizarão GNL em seus motores. Afretados à malaia AET, os navios operarão com GNL fornecido pela divisão da Total especializada em combustíveis marítimos.
Como temos noticiado, a menos que a Covid-19 cause uma modificação permanente no panorama econômico brasileiro, a interiorização do uso do gás natural deve acelerar-se no futuro próximo, com a operação conhecida como small scale - o transporte rodo-hidroviário de GNL via caminhões e embarcações, a partir de terminais marítimos. A exemplo da China, EUA e Europa, onde já rodam 300 mil veículos pesados a GNL, o Brasil poderá ter em breve não apenas corredores azuis (estradas com postos de abastecimento de GNL), como também os chamados isotanques, containeres criogênicos que podem ser acoplados a caminhões. A Golar Power, joint venture da norueguesa Golar LNG e do fundo americano Stonepeak Infrastructure, em parceria com distribuidoras de combustíveis (BR Distribuidora) e de gás natural (Sergás,Cemar), lidera o arrojado projeto.
A maior queda em dezoito anos nos preços internacionais do petróleo, consequente da redução da demanda (paralização geral causada pela Covid-19), e do aumento da extração (desentendimento entre grandes produtores), deve ser estancada e possivelmente revertida com o acordo fechado em 12/04/20 entre a Opep e países integrantes do G-20. O volume comercializado, hoje um pouco menos de 100 milhões de b/d, sofrerá redução de 9,7%, provavelmente o suficiente para obter os efeitos desejados. O Brasil responde por 3 milhões de b/d, dos quais dois terços produzidos pela Petrobras, que já anunciou diminuição de 200 mil b/d em áreas de custo de extração mais altos.
Boletim de 13/04/20, da CCEE - Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, informa que, ainda no ritmo de retomada da economia que vínhamos apresentando, em final de fevereiro/20 atingimos a expressiva marca de 2005 unidades geradoras em operação no país. A fonte hidráulica permanece como a mais numerosa (875 usinas), seguida cada vez mais de perto pelas eólicas (615), vindo depois as térmicas (401) e as solares (114). Dentro do segmento térmico estão as unidades a biomassa (286), a gás natural (48), a óleo (44), a carvão (10), nucleares (2) e outras fontes térmicas (11). Na contramão destes belos números, o consumo de energia elétrica, mais uma vítima do coronavirus, caiu 1,2% em fevereiro/20.
Uma das consequências negativas da atual pandemia é o corte generalizado dos investimentos programados para 2020, talvez ainda mais acentuado na indústria de petróleo e gás natural (O&G), afetada no preço de seus produtos. Um exemplo significativo é a ExxonMobil, a maior entre as empresas privadas, que anuncia a redução de US$ 33 bilhões para US$ 23 bilhões no seu capex 2020. O corte afetará principalmente as atividades na área do Permiano (Texas e Novo México), cujo petróleo tem preço de extração mais elevado, e dificuldades no escoamento do gás natutal associado. Note-se que não haverá cortes no desenvolvimento do offshore da Guiana - não há referências aos investimentos da empresa no Brasil. (em inglês)

01 abril 2020

A norueguesa Golar Power anunciou mais um investimeto no Brasil - desta vez, será a construção de um terminal de regaseificação de GNL no Porto do Suape, em Pernambuco, e a necessária infraestrutura para levar o GNL em caminhões especializados a cidades em um raio de mil km. A interiorização do produto, que será feita em parceria com a distribuidora local, a Copergás, atingirá em um primeiro momento as cidades de Petrolina e Garanhuns, mas deverá expandir-se ao longo da chamada Rota Azul, conjunto de postos de abastecimento de gás natural a veículos nas estradas da região Nordeste.
Como é do conhecimento de nossos leitores, a injeção de biometano (biogás purificado) às redes de tubulação das distribuidoras de gás natural é permitida pela Resolução nº 08/15, da ANP, que estabelece as condições para esta operação. A gaúcha Sulgás, uma das primeiras a agir neste sentido com a chamada pública de 26/03/19, completou agora a segunda etapa deste processo, com a análise criteriosa das propostas e seleção dos fornrcedores habilitados. A empresa entrará em seguida em negociação com os eventuais supridores dos 22 mil m³/dia que pretende adicionar à sua rede, em diferentes pontos do Estado. Considerando a conveniência econômica e ambiental do uso do biometano, espera-se que outras distribuidoras façam o mesmo.
Já consagrada como uma das regiões brasileiras mais propícias à geração eólica, o interior da Bahia agora é também um dos locais preferidos pelos investidores em energia solar, graças à sua excepcional insolação. Em 17/03/20, foi assinado um Protocolo de Intenções entre o BNDEs e o empreendedor, a empresa Sol do Sertão, no valor de R$ 810 milhões, para a construção de três complexos de geração solar fotovoltaica, totalizando 474 MW de capacidade instalada. A realização da obra, em Oliveira dos Brejinhos, no centro do Estado, a 600 km da capital e 550 m de altitude, demandará 1,2 mil trabalhadores nos próximos meses, e gerará 1,4 mil empregos permanentes quando pronta, em 2021.
Depois do bem sucedido first fire de suas turbinas GE, em dezembro/19, a UTE Porto de Sergipe, em Barra dos Coqueiros,SE, realizou nestes dias os testes finais - as três turbinas a gás natural, a turbina a vapor e as très caldeiras operaram em ciclo combinado por 96 horas, produzindo acima da capacidade instalada de 1,55GW. Os testes foram coordenados pela norueguesa Golar Power, que além de fornecer o GNL, opera a unidade de regaseificação (FRSU) e é participante da Celce, a empresa proprietária do empreendimento. Como noticiamos recentemente, a Golar fará também a distribuição do GNL não consumido pela UTE em caminhões criogênicos .
Relatório divulgado em março/20, da IEA - International Energy Agency, prestigiado orgão ligado à OCDE, aponta as possibilidades de expansão do biogás/biometano no mundo nos próximos vinte anos, impulsionada pela crescente massa de matéria-prima (rejeitos orgânicos vegetais e animais), pelos óbvios benefícios ambientais do seu uso racional, e pela redução do custo obtida por avanços tecnológicos. O estudo, que contou com a colaboração da ABiogás - Associação Brasileira de Biogás, prevê ainda que a utilização do potencial, hoje de apenas 6% -35 milhões de toneladas de óleo equivalente (mtoe) usadas, em um potencial de 570 mtoe - cresça a ponto de suprir 20% da demanda por gás natural em 2040.
A evolução da pandemia de coronavirus tem reflexo direto na programação mundial de parques eólicos, seja pela paralização de obras em andamento, seja por adiamento do início de novas instalações. Informação da consultoria Wood Mackenzie revê a previsão anterior da empresa, que indicava 78 GW de nova capacidade instalada de geração eólica neste ano, reduzindo-a em 4,9 GW. Os maiores impactos são nos principais mercados, China e Estados Unidos, mas a redução é geral, incluindo o Brasil. A dimensão da crise atingiu também fabricantes de equipamentos, como a Siemens Gamesa, que encerraram a produção, e deverá estender-se para 2021, com o cancelamento de novas licitações em vários países.
No momento crítico que o mercado internacional de O&G atravessa, com redução da demanda causada pala pandemia e guerra de preços entre os produtores, uma notícia que favorece o Brasil - a mudança na especificação mundial sobre combustíveis marítimos. Em vigor desde o início do ano, o novo IMO 2020 reduz de 3,5% para apenas 0,5% o teor de enxofre admissível no óleo usado nos navios, ou exige instalação de dispositivos chamados de lavadores, que retiram o poluente. Como nosso petróleo do pré-sal está dentro das novas regras, a Petrobras exportou em fevereiro/20 1 milhão de ton de óleo combustível, ou 238 mil b/d, um recorde. As exportações continuarão em nível alto, a menos que, como já fez a Inglaterra, as exigências sejam suspensas temporariamente.
Estudo divulgado pela IHS Markit, conceituada pesquisadora e consultoria, aponta para o agravamento do mercado mundial de petróleo, caso as presentes condições persistam - redução da demanda decorrente da pandemia Covit-19, e aumento da produção face ao desentendimento entre Rússia e Arábia Saudita. O consumo mundial, que estava em cerca de 100 milhões de barris/dia (mb/d) no final de 2019, já sofreu uma redução de 4 mb/d em fevereiro/20, e poderá chegar a diminuir 10 mb/d em maio deste ano. Por outro lado, a decisão dos sauditas de acrescer 2,6 mb/d à sua produção poderá somar-se à resposta russa de mais 0,3 a 0,5 mb/d, se um acordo não for rapidamente alcançado. Ainda segundo a IHS Markit, um descompasso desta ordem é inédito na história do mercado internacional de petróleo (em inglês).

14 março 2020

Além da grande produtividade dos poços do pré-sal brasileiro, da ordem de 20 mil b/d, o que trás o custo de extração a valores de apenas US$ 3/b, sua qualidade vem contribuindo para a obtenção de um bom preço de venda, muito próximo das cotações do Brent - no final de 2019, cargas do campo de Lula foram exportadas com prêmio de até US$ 4 acima do preço do Brent. Isto se deve, em grande parte, ao seu baixo teor de enxofre, disse a diretora de Refino e Gás da estatal, em entrevista em 20/02/20. O teor de enxofre reduzido, no qual o óleo do pré-sal se enquadra, é uma exigência da nova especificação para o combustível de navios, da Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), que entrou em vigor no início de 2020.
Ventos fortes, constantes e direcionais são uma nova riqueza para o interior do país - além da geração de energia, os investimentos feitos por grandes players, nacionais e internacionais, beneficiam direta e indiretamente a população pobre destas regiões. Entre os Estados do Piaui e Pernambuco, a expansão dos atuais parques Ventos do Piaui (206 MW) e Ventos do Araripe (352 MW) resultará no maior complexo eólico nacional, totalizando 1 GW de potência instalada. O empreendimento, de R$ 2 bilhões, será feito pela Votorantim Energia em parceria com o fundo canadense CPP Investments, e deverá operar em meados de 2022.
Com exceção da Naturgy (Rio e parte de S.Paulo) e da Cosan ( parte de S.Paulo), as demais controladoras das distribuidoras de gás natural são a Gaspetro ou governos estaduais. Esta panorama será modificado substancialmente no futuro próximo, com o oferecimento de oportunidades de aquisição pela iniciativa privada. Como já informamos, está em curso a venda da Gaspetro, que tem participação em 19 distribuidoras, e agora noticia-se a alienação pelos Estados de sua posição acionária em seis empresas - Compagas (PR), ESGás (ES), Gasmar (MA), MSGás (MS), Sergás (SE) e Sulgás RS). Estas vendas estão em diferentes estágios de maturação, com o BNDES assumindo a responsabilidade dos processos - há expectativa de que, já no início de 2021, a primeira operação se concretize.
A interiorização do uso do gás natural no Brasil, ainda muito deficiente - 95% dos municípios do país ainda não recebem o combustível - ganhará impulso com a distribuição terrestre ou hidroviária de GNL, uma prática já difundida com sucesso em vários países. Uma parceria entre a BR Distribuidora e a Golar Power, recém firmada, utilizará o GNL disponível em terminais marítimos operados pela empresa norueguesa, que transportará o produto em caminhões especializados às instalações da BR em diversos pontos do interior. O GNL poderá ser consumido diretamente como combustível veicular, ou em pequenas unidades de regaseificação, para distribuição local.
Como mais um passo no seu compromisso com o Cade, de abrir espaço no mercado de gás natural, a Petrobras assinou em 06/03/20 um acordo com a boliviana YPFB, reduzindo em um terço o volume máximo de gás a ser recebido pela estatal brasileira. A limitação da importação, que também atende à elevação da produção no país, libera 10 milhões de m³/dia da capacidade do Gasbol para empresas privadas. A expectativa é de que, com este acordo, a ANP reabra o concurso público iniciado em 2019, interrompido por pedido do Cade, e que já havia atraído 18 empresas, não apenas grandes players do mercado, mas também consumidores como siderúrgicas e fabricantes de fertilizntes.
Dentro do tema gás natural, um dos pontos que mais temos comentado é a ausência no Brasil de veículos pesados, ônibus e caminhões, acionados pelo combustível. Não mais - apresentado no final do ano passado, o caminhão Scania R 410 entrou em fabricação em S.Paulo, já tendo 13 unidades vendidas, a serem entregues em abril/20, e expectativa de 200 outros comercializados ainda esta ano. O Scania R 410 consome GNC (gás natural comprimido), mas pode rodar com biometano, ou uma mistura dos dois. Seu motor é Euro 6, ou seja, enquadra-se nas rigorosas normas européias de emissões, o que pode atrair transportadores brasileiros, justificando o preço ainda elevado (30%) em comparação com o equivalente a diesel.
A Cosan, controladora da Comgás, atua também na área de transportes (Rumo), combustíveis (Raízen), e no agronegócio, do qual o grupo se origina. Com as novas perspectivas do setor de gás natural, geradas pela retração da Petrobras e disposição explícita do Governo, a Cosan anunciou em 09/03/20 sua nova controlada, a Compass Gás e Energia, com a qual participará da privatização das distribuidoras regionais de gás, já definida, e também de termelétricas que venham a ser alienadas. O momento é propício - as estimativas são de passarmos em dez anos dos atuais 51 milhões de m³/dia hoje disponibilizados ao mercado ao preço de US$ 14/milhão Btu, a 108 milhões por apenas US$ 6, o que permitiria a eleva,cão da participação do gás de 11% para acima de 30% na matriz elétrica brasileira.
Apesar das incertezas do panorama econômico nacional, a expansão das 23 distribuidoras regionais de gás natural segue sua trajetória em bom ritmo, alimentada por resultados positivos em seus balanços. Um bom exemplo é a catarinense SCGás, que anuncia ter atingido em fevereiro/20 a média diária de vendas de 2,07 milhões de m³/dia, com pico de 2,25 milhões em 21/02, valores recordes - isto sem ter fornecimento de gás termelétrico. Talvez não por coincidência, o crescimento anual observado em dezembro/19 foi de 3,96%, muito próximo do avanço do PIB catarinense, de 4% em 2019 - longe da débil média nacional de 1,1%.

23 fevereiro 2020

A Petrobras divulgou em 10/02/20 relatório de produção e vendas do 4º trimestre de 2019 (4T19), salientando o desempenho operacional no período, com recordes diários, trimestrais e anuais. No 4T19, a produção média foi de 3,025 milhões de boed, atngindo em dezembro/19 o valor de 3,8 milhões de produção própria e operada (incluindo as parceiras). No período, o petróleo obtido no pré-sal chegou a 1,533 milhões de barris diários, 59% do total brasileiro, nada menos que um aumento de 46,4% em um ano, especialmente pela performance do campo de Lula. A empresa enfatizou ainda a aquisição dos ativos de Búzios, considerado o maior campo de águas profundas do mundo, o que elevará as reservas provadas da empresa, hoje em 9.590 milhões de boe.
A norueguesa Golar, com forte atuação no mercado mundial de GNL através de seus navios de transporte, liquefação (FLNG) e regaseificação (FRSU), está presente no Brasil nos terminais de regaseificação da Petrobras, em breve operará no complexo Porto de Sergipe, e estuda novos terminais no Maranhão e Pará. A empresa anuncia agora sua participação na distribuição de gás, e ainda em 2020 terá cem caminhões transportando GNL para indústrias e outros grandes consumidores no interior do país. Em Associação com a Alliance GNLog,a Golar já tem parceria com a distribuidora sergipana Sergás, e protocolo de intenções com a Gasmar, no Maranhão.
As novas perspectivas para o gás natural no Brasil, com a produção crescendo a dois dígitos, política de abertura dos mercados e a presença de players internacionais, estão impulsionando a expansão das distribuidoras regionais. Em recente encontro no Maranhão, as distribuidoras do Nordeste apresentaram planos para os próximos cinco anos, período em que pretendem adicionar 200 mil novos clientes, com investimento de R$ 1,5 bilhão. Entre as iniciativas apresentadas, estão os corredores azuis (rede de postos de abastecimento com GNV que garanta a circulaçao de caminhões, ônibus e demais veículos nas estradas da região), produção local vinda do offshore da bacia Sergipe-Alagoas (20 milhões de m³/dia), gasodutos de transporte, distribuição de GNL no interior e utilização do biogás, já bem aproveitado pela Cegás.
A capacidade instalada do gás natural na matriz elétrica brasileira estava, no final de 2019, em torno de 12%, muito inferior à média mundial, acima de 22%. Esta defasagem deverá dimnuir, segundo o Plano Decenal de Energia 2029 - PDE 29, da EPE, cuja versão final foi divulgada em 11/02/20. Neste extenso documento é mantida a expectativa de grande expansão das fontes renováveis, eólica, solar e biomassa que, juntamente com a fonte hidráulica, deverão representar 80% da matriz elétrica em 2029. Nos 20% restantes, o gás natural prevalecerá, garantindo o suprimento em caso de crises climáticas, com ganhos de espaço sobre óleo, carvão e nuclear.
Os recordes na produção de O&G obtidos pela Petrobras no quarto trimestre de 2019, destacados neste Boletim, foram seguidos por dados divulgados pela ANP em 19/02/20, referentes a janeiro/20, abrangendo a produção obtida por todas as empresas que atuam no Brasil. Segundo a Agência, o total extraído no período foi de 4,041 milhões de boed, um recorde, valor capaz de colocar-nos entre os dez primeiros no ranking mundial. Considerando separadamente óleo e gás, tivemos para o petróleo a produção de 3,168 milhões de b/d, um aumento de 1,99% sobre dezembro/19, e notáveis 20,45% na comparação anual. Quanto ao gás natural, a produção de janeiro/20 atingiu 138,7 milhões de m³/dia, 0,71% mais que no mês anterior, e 22,58% acima de janeiro/19. O pré-sal representou 66,37% do total nacional, justificando amplamente a concentração de investimentos que vem sendo realizada.
Como temos frequentemente mencionado, o potencial brasileiro em fontes energéticas renováveis é dos maiores do mundo, sejam elas hidraúlica, solar, eólica ou biomassa. Recente relatório da Zion Market Research inclui o Brasil na relação dos mais promissores no uso do biogás/biometano (o único país latino americano mencionado), face ao enorme volume de resíduos orgânicos consequentes de nossa posição impar na agricultura e pecuária. Segundo a ABiogás - Associação Brasileira de Biogás, já temos hoje 400 plantas em operação, um aumento de 40% em apenas um ano, com várias outras em construção - talvez, mantido o ritmo, possamos chegar à produção de 30 milhões de m³/dia de biometano ainda nesta década.
Como informa a EIA - Energy Information Agency, a produção de gás natural nos EUA atingiu valores recordes em 2019, especialmemte pela abundância do gás associado ao petróleo na exploração de shale oil&gas da região do Permiano, no Texas e Novo México. Mesmo com a aceleração da construção de unidades de liquefação voltadas para a exportação, há excesso de gás na área, em parte por falta de infraestrutura de escoamento. Com a recente retração da demanda chinesa por GNL, decorrente da epidemia de corona virus, os preços do gás natural chegaram ao ponto mais baixo em décadas (menos 15% somente neste ano). Junte-se ao contexto o vencimento de vultosos empréstimos contraídos pelos produtores, gerando sérios riscos de inadimplência, identificados pelas agências especializadas.
Com o rápido aumento da produção de shale oil&gas no Sul dos EUA, especialmente na área do Permiano (Texas e Novo México), os preços do etano contido no gás tornaram-se muito atrativos para a petroquímica do país, e mesmo para exportação. Um dos beneficiados é o grande complexo Nanchital, no Estado de Veracruz, no México, um empreendimento da Braskem e da mexicana Idesa, inaugurado em 2016, que produz cerca de 1 milhão de ton/ano de polietileno. Iniciado nestes dias, o suprimento de etano americano atende apenas 19% do consumo do complexo, mas deverá ser ampliado mediante contrato de longo prazo, que envolverá instalações portuárias e gasoduto. Com o etano como matéria prima, a produção de Nanchital deverá ser ampliada até final de 2021 (em inglês).