Termelétricas Valor Econômico 26 dezembro 2020

Indústria poderá investir US$ 31 bilhões em 10 anos

A indústria, e não a geração térmica de energia elétrica deverá ser a principal âncora para a expansão do mercado de gás natural no Brasil. E o setor industrial avalia que, com o gás competitivo, a US$ 7 por milhão de BTU (medida térmica do gás), cerca da metade do preço atual, os segmentos intensivos em energia, como o químico, o siderúrgico e o de papel e celulose, investirão US$ 31 bilhões nos próximos dez anos. Hoje o preço do gás é o grande gargalo, mas acreditamos estar no caminho, diz Juliana Falcão, especialista da CNI.

Para o país avançar na competitividade do gás, porém, o setor depende do término da tramitação e sanção presidencial da nova Lei do Gás, aprovada em setembro na Câmara de Deputados e em fase final de apreciação no Senado. Ela será o arcabouço legal do mercado competitivo na oferta, na logística e na demanda. Com a abertura, espera-se queda de preço e um aumento da demanda para sustentar a oferta de 250 milhões de metros cúbicos/dia (m3/dia) em 20 anos, o dobro da atual, originária, principalmente, do pré-sal.

Hoje esse mercado é altamente concentrado pela Petrobras nos dois primeiros segmentos, embora a estatal venha antecipando essa desconcentração por conta própria. A indústria, que é a maior consumidora do combustível no país, mas que tem consumo estagnado em torno dos 40 milhões de metros cúbicos por dia, nos últimos dez anos, tem papel decisivo nesse processo.

A indústria de transformação é o lastro para a expansão da demanda do gás natural, e aí entra a siderúrgica, a química e outras na sequência, afirma Fabio Abrahão, diretor de Infraestrutura, Concessões e PPPs do BNDES. Abrahão descarta a alternativa das usinas termelétricas flexíveis para o papel, opção abraçada por muitos especialistas.

Segundo Abrahão, o BNDES chegou a esta conclusão após estudos aprofundados que incluíram interação com os segmentos econômicos mais intensivos no uso do gás, entre os quais a geração termelétrica ocupa o segundo lugar (indústria e termelétricas respondem por cerca de 90% da demanda total).

Encomendados pelo Ministério da Economia, os estudos, que deverão ser apresentados no começo do próximo ano, apontam a malha ferroviária, existente ou em construção, como primeira alternativa logística para assegurar a interiorização da demanda, antes que essa demanda justifique os pesados investimento para a expansão da malha dutoviária.

Segundo Carlos Thadeu Fraga, CEO da Prumo Logística, a infraestrutura dutoviária brasileira é bastante frágil: conta com apenas 9 mil quilômetros de extensão, enquanto a Argentina tem cerca de 30 mil quilômetros e Os Estados Unidos, ao redor de 500 mil.

Para Juliana, da CNI, a indústria tem potencial para ratificar as conclusões do BNDES, desde que o novo marco regulatório traga a competitividade esperada ao preço do gás. Estudo contratado pela CNI mostra que o gás natural no Brasil é o mais caro em uma lista de 13 países escolhidos, a preços de 2019, superando inclusive o Japão, país que é 100% importador do produto.

Se o preço caísse de US$ 14 por milhão de BTU para US$ 7, como é esperado, a posição brasileira iria para o quinto lugar, atrás de Argentina, Estados Unidos, México e Canadá. A representante da CNI ressalta que o preço do gás está tirando competitividade da indústria brasileira e tornando o país cada vez mais importador em segmentos estratégicos, como o setor químico, maior consumidor de gás na indústria, que está importando US$ 45 bilhões por ano.

A desconcentração da oferta e da infraestrutura é um dos fatores básicos para esse desejado aumento da competitividade do gás natural. De acordo com o gerente executivo de Gás e Energia da Petrobras, Rodrigo Costa Lima, a estatal vem concentrando esforços para reduzir essa participação que até recentemente era monopolista. Segundo ele, o planejamento da estatal é reduzir sua participação no segmento, calculada entre de 75% 80% em 202, para um percentual entre 50% e 55% em 2030.

 

Fonte: Valor Econômico / Suplemento Petróleo e Gás