Termelétricas Valor Econômico /Suplemento de Energia 26 dezembro 2020

Uso do gás do pré-sal ainda é incipiente

A oferta de gás natural do pré-sal ainda não estimula projetos de geração térmica no Brasil. Segundo dados da Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas (Abraget), seis projetos já contratados em leilões de energia nova vão expandir a geração termelétrica em 4.492 MW entre 2021 e 2025. Apenas um desses projetos utilizará gás natural do pré-sal, a usina Marlim Azul.

O combustível predominante dos demais projetos em construção é o gás natural liquefeito (GNL), que é importado. Abastecerá as duas usinas do complexo fluminense Gás Natural Açu (GNA I e II), com capacidade total de 2.900 MW, e Novo Tempo Barcarena, no Pará, com 605 MW. As termelétricas Parnaíba V e VI, com capacidade somada de 477 MW, serão alimentadas com gás natural de uma jazida em terra na Bacia do Parnaíba, no Maranhão.

Marlim Azul reúne vantagens competitivas importantes que a tornaram a primeira térmica a aproveitar o gás do pré-sal. A usina, que está sendo construída em Macaé (RJ), terá capacidade de geração de 510 MW e deve entrar em operação em janeiro de 2023, após investimentos orçados em US$ 700 milhões, feitos pelo consórcio formado pela Shell, uma das petroleiras que atuam no pré-sal brasileiro, Pátria Investimentos e Mitsubishi Hitachi Power Systems.

A viabilidade do empreendimento está diretamente relacionada ao acesso à infraestrutura já existente na região de Macaé, a Rota 2 de escoamento do gás natural do campo Tupi da Bacia de Santos, o terminal de armazenamento e a unidade de processamento de gás de Cabiúnas, da Petrobras.

Utilizamos um gás que já está disponível no mercado, diz Guilherme Perdigão, gerente geral de novas energias da Shell. Novos projetos termelétricos com gás do pré-sal teriam muita dificuldade de se viabilizar com as regras atuais de contratação de geração elétrica, afirma o executivo.

Uma pré condição para um player participar de um leilão de energia nova da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é a garantia de reserva energética. Mas o gás do pré-sal só tem duas rotas de escoamento e o gás transportado, 26 milhões de m3 por dia, já está contratado. A terceira rota, em construção, com capacidade de processar 21 milhões de m3 ao dia, abastecerá a partir de 2021 o Polo Gaslub Itaboraí (RJ) da Petrobras.

Investidores em geração térmica interessados em utilizar o gás do pré-sal teriam que investir em novas rotas de escoamento da produção e em nova unidade de processamento do gás. Ninguém fará investimentos desse porte sem antes ter a certeza que o projeto está referendado pelo leilão da Aneel. Mas as regras da agência o impedem de participar do leilão sem demonstrar que tem a reserva energética necessária ao projeto, diz Perdigão.

Outro problema é que o gás do pré-sal é produzido de forma associada com o petróleo, ou seja, a produção é contínua e precisa de escoamento contínuo. A estrutura de produção de Marlim Azul foi estabelecida em contrato de 25 anos com a Aneel e prevê fornecimento de 80% da produção para o mercado regulado e 20% ambiente livre.

A capacidade de geração térmica conectada ao Sistema Interligado Nacional (SIN) soma 22.237 MW. Não há novos projetos de fontes como carvão, óleo e diesel e não há sinalização clara do governo sobre a conclusão da usina nuclear Angra III, com potência prevista de 1.405 MW. A expansão da geração térmica tem como base o gás, que responde por 8% da matriz elétrica brasileira, com capacidade de 12.921 MW. Com a conclusão de projetos programados, a geração a gás passará para 17.413 MW.

 Temos gás em abundância no Brasil e no exterior e esse combustível tem potencial para ter participação maior na matriz elétrica brasileira; pode responder por 20% a 30% da geração, diz Xisto Vieira Filho, presidente da Abraget. Mas as autoridades precisam valorizar os atributos das termelétricas na hora da contratação, diz.

O principal atributo de uma termelétrica é sua capacidade de entrega de energia de forma confiável sempre que acionada. Energias renováveis, como eólica, hídrica e solar dependem das condições climáticas para entregar a produção. As termelétricas geram segurança ao sistema energético e isso precisa ser precificado, diz Vieira. Para ele, a expansão da geração térmica demanda a realização de leilões específicos para as termelétricas ou leilões separados de lastro e de energia efetivamente gerada e consumida. Hoje lastro energia são comercializados em conjunto nos leilões de energia do mercado regulado. A proposta é o compartilhamento de despesas do lastro, que só é fornecido por térmicas e hidrelétricas, entre consumidores regulados e os do mercado livre.

 

Fonte:Abegás (18/12/2020)