Distribuição Valor Econômico 21 maio 2020

Distribuidoras de gás veem queda profunda de consumo no trimestre

 

As distribuidoras de gás natural do país preveem forte impacto da crise causada pela pandemia de covid-19 no setor durante o segundo trimestre. Dados preliminares indicam queda de 35% a 40% no gás consumido pela indústria e de 60% pelo comércio nos meses de abril e maio, em relação a igual período de 2019.

O mercado de GNV também está experimentando um recuo da ordem de 40%, na mesma comparação, em linha com a redução das vendas dos combustíveis líquidos.

Com as medidas de isolamento se intensificando, já vemos isso em alguns Estados, a tendência é que esses volumes caiam ainda mais, disse o diretor de Estratégia e Mercado da Abegás, Marcelo Mendonça. Abril, maio e junho serão impactados pelo efeito coronavírus.

Os dados oficiais relativos ao primeiro trimestre, informados com exclusividade ao Valor, ainda não demonstram o efeito da crise. O consumo de gás natural no período foi de 62,9 milhões de metros cúbicos diários, com crescimento de 2,82% em relação aos primeiros três meses de 2019.

Parte do crescimento, porém, deve-se a uma base de comparação mais fraca com relação ao setor termelétrico no primeiro trimestre de 2019, o que motivou um aumento de 23,62%, na mesma comparação, apenas nessa categoria.

No entanto, se observados separadamente, os dados de março já indicam a dimensão do problema. O consumo de gás natural foi de 49,5 milhões de metros cúbicos diários, com queda de 14,28% ante igual mês de 2019 e de 20,7% na comparação com fevereiro deste ano.

As empresas já observam queda da receita e aumento da inadimplência de clientes. A Abegás, porém, ainda não tem números consolidados sobre esses dois fatores. O primeiro impacto foi a redução do volume [consumido]. Estamos receosos de aumentar a inadimplência no setor, disse Mendonça.

Ele destaca que o mercado de distribuição de gás natural tem perfil semelhante ao das distribuidoras de energia elétrica, por ser considerado o arrecadador de recursos para a cadeia.

Segundo o executivo, de todo o montante arrecadado pelas distribuidoras, apenas 17% ficam com elas, para remunerar sua atividade. O restante é repassado para a cadeia e para o pagamento de impostos.

Por esse motivo, o aumento da inadimplência é considerado preocupante pelo executivo, que entende ser necessário haver uma solução para o mercado de gás semelhante ao que está sendo viabilizado para o setor elétrico.

Nessa linha, a Abegás já teve conversas com representantes do governo federal e do BNDES. Até o momento, porém, não há sinal de alguma medida de apoio ao setor.

O único benefício concedido às distribuidoras até o momento foi a decisão da Petrobras de suspender penalidades nos contratos com as empresas. As companhias já acionaram o dispositivo contratual de caso fortuito e de força maior nos contratos com a petroleira.

A maior preocupação do setor, explicou Mendonça, é um agravamento ainda maior da crise, que impeça as distribuidoras de cumprir seus compromissos e desmontar a cadeia. Ele, no entanto, afirmou que ainda não é possível identificar desequilíbrio econômico-financeiro das concessionárias.

Questionado sobre a perspectiva para o mercado de geração termelétrica nos próximos meses, quando geralmente há um maior consumo de gás para o acionamento das usinas, devido ao período de escassez de chuvas, Mendonça respondeu que ainda não é possível prever esse movimento.

O despacho [das térmicas] vai depender muito de como vai ser a recuperação da economia e da demanda, afirmou.

 

 

Fonte: Abegás (21/05/2020)